Charlie bit my finger!18/02/2012 | 02h16

Após vídeo virar hit da internet, irmãos ingleses crescem em meio à fama inesperada

Viral que já voi assistido mais de 417,6 milhões de vezes no You Tube mostra pequenino Charlie mordendo o dedo do irmão mais velho

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Após vídeo virar hit da internet, irmãos ingleses crescem em meio à fama inesperada Andrew Testa/NYTNS
Sucesso do vídeo não-comercial mais bem sucedido da história do YouTube já rendeu à família mais de 158 mil dólares Foto: Andrew Testa / NYTNS



Visitando o parque local recentemente, Shelley Davies-Carr e seus quatro filhos de repente foram rodeados por um bando de adolescentes excessivamente animados, de celulares em punho e tirando fotos. "Ai, meu Deus!", os adolescentes gritaram, daquela maneira que só os adolescentes sabem gritar. "Charlie bit my finger!" (Charlie Mordeu Meu Dedo).

De fato, é difícil encontrar alguém no universo de pessoas que veem vídeos online que não tenha ouvido falar de "Charlie Bit My Finger", um vídeo no YouTube com o pequenino Charlie Davies-Carr mordendo o dedo do seu irmão mais velho, Harry. Desde que foi postado em 2007, o vídeo de 56 segundos de indignação infantil com sotaque britânico e alegria de bebê já foi assistido impressionantes 417,6 milhões de vezes até meados de fevereiro, tornando-o o mais bem sucedido vídeo não-comercial da história do YouTube.

Seu apelo é simples. "Eu já assisti o vídeo no mínimo 100 vezes" declarou uma internauta chamada Hannahjp100 no site de "Charlie" e continuo rindo toda vez que assisto".



Howard Davies-Carr, consultor de tecnologia da informação de 43 anos e pai de Charlie, hoje com 5 anos, e Harry, com 7, disse que, apesar de não considerar seus filhos celebridades, admite que eles haviam se tornado uma marca, gostando ou não. Ele e Shelley, que administra uma creche em sua casa, explicaram algumas das repercussões disso em uma conversa recente em sua cozinha repleta de bagunça infantil. (Eles moram perto de Maidenhead, mas preferem que o nome da cidade não seja publicado.)

A família é reconhecida em lugares aleatórios — no metrô de Londres, em casa, pelo técnico de consertos da máquina de lavar. Em janeiro, "Charlie Bit My Finger" foi mencionado em "30 Rock". Crianças internautas do mundo todo aparentemente citam o vídeo quando se machucam, ou quando querem expressar indignação fingida.

Existem sites de fãs, páginas no Facebook e um número infinito de paródias. Uma mulher em Nova York se voluntariou para ser a tia honorária dos meninos. O dentista da família revelou recentemente que um conhecido seu havia batizado seu filho de Charlie, em homenagem ao vídeo.

O vídeo também mudou a vida deles materialmente. Davies-Carr não revela o quanto de já ganharam, mas afirma que o valor "está acima das 100 mil libras", ou seja, mais de US$ 158 mil dólares, o bastante para pagar a educação dos meninos. Mas por que esse vídeo em especial?

— Vídeos são vídeos. Ou eles fazem sucesso, ou não — disse Davies-Carr, que a princípio colocou o vídeo na internet apenas para deixar um amigo da família, que mora no Colorado, a par do progresso de seus filhos. Ele afirma que a questão viral surgiu depois, de maneira inesperada, quando o vídeo foi aparentemente postado em um site de humor colegial e as coisas começaram a acontecer.

Se o charme do vídeo parece bastante direto _ o sotaque bonitinho de Harry, a risada maníaca de Charlie — sua popularidade global e sem precedentes é um mistério. Afinal, não estamos falando de "Cidadão Kane" ou de "Porky's Contra-Ataca".

Embora vídeos de animais fofinhos, crianças fofinhas e pessoas infelizes desabando no chão inesperadamente façam mais sucesso do que vídeo que não são fofinhos ou engraçados, descobrir o que faz com que um vídeo se torne viral e outro permaneça na obscuridade é um dos grandes desafios da era do YouTube.

No Reino Unido, alguns comentaristas já tentaram compreender o apelo do vídeo e de suas sequências, que mostram os garotos e seus irmãos, Jasper, de 3 anos e meio, e Rupert, de 8 meses, envolvidos em atividades que não envolvem mordidas.

— Eles não são exatamente excepcionais, para dizer o mínimo — escreveu Terence Blacker no The Independent.

Mas não é assim que o mundo os vê, e Davies-Carr afirma que pensou muito em como "monetizar" de maneira responsável o que acabou se tornando uma propriedade de muito valor.

Ele é um "parceiro" do YouTube, o que significa que a família recebe uma parcela do valor das propagandas no site. Os garotos tornam isso algo comercial. Um novo aplicativo do "Charlie" está sendo produzido para o iPhone e o Android. Há planos para publicar livros infantis e abrir um canal no YouTube.

A família é representada por uma empresa chamada Viral Spiral, que tem como clientes as pessoas por trás do bebê panda que espirra e dos dois bebês gêmeos balbuciantes. Damien Collier, que fundou a empresa há cerca de um ano — a família Davies-Carr foi a sua primeira cliente — disse que se surpreendeu com a abordagem deles.

— Quando conheci Howard, ficou claro que ele estava extremamente preocupado em preservar seus filhos e em se certificar de que qualquer coisa que fosse feita fosse de bom gosto, e não uma exploração — disse Collier.

Esse caminho tem sido difícil. O objetivo de Davies-Carr não era vender camisetas temáticas, por exemplo, mas ele o fez de maneira quase defensiva, em resposta ao mercado.

— Por que diabos alguém usaria uma camiseta do 'Charlie Bit My Finger'? — ele perguntou retoricamente. — No entanto, encontrei centenas de pessoas do mundo inteiro que já as estavam vendendo — completou.

Os britânicos costumam invejar e se ressentir da fama e das riquezas que a acompanham, especialmente quando elas ocorrem com pessoas comuns, e a família já teve que lidar com um bocado de provocações. Jan Moir, do The Daily Mail, comparou pessoas que lucram com os vídeos de seus filhos a pais vitorianos que mandavam seus filhos para trabalhar nas fábricas ou como vendedores de fósforos nas ruas.

— Por que não tirar uma grana dos pestinhas ingratos? — ela perguntou sarcasticamente.

Segundo Davies-Carr, é difícil fazer com que seu vídeo se espalhe muito, e ele não quer que outras famílias nutram falsas esperanças de reproduzir o sucesso de "Charlie". Ele leva todo o empreendimento muito a sério, removendo comentários ofensivos do site de "Charlie" e regularmente postando novos vídeos dos garotos fazendo coisas como correr por aí com roupas de cavaleiros. Ele afirma não dirigir nem escrever roteiros para os vídeos; considera-os como recortes da vida familiar, que por acaso estão disponíveis para que todos possam ver.

Quanto a Harry e Charlie, eles não opinaram muito a respeito de suas vidas capturadas pela câmera, preferindo discutir assuntos mais urgentes, como a festa de aniversário de Charlie, que acontecerá em breve e cujo tema será o Harry Potter. Seu pai afirma que, quando eles tiverem crescido o suficiente, deixará que eles escolham se querem continuar vivendo uma vida semiexaminada.

— Não estou exatamente jogando-os no mundo ou tentando torná-los modelos ou atores — ele disse.

Alguns dos vídeos mais novos da família contam com milhões de exibições, mas nenhum deles se compara a "Charlie Bit My Finger". O que nos leva a outra questão: o que acontece com uma família vigiada quando ninguém mais quer vigiá-la? E será que a família Davies-Carr está sofrendo do "equivalente do YouTube da síndrome do segundo disco", como um jornal publicou, e que eles são incapazes de reproduzir seu sucesso precoce e fortuito?

Davies-Carr afirma que não é nada disso.

— Eu não ficaria chateado se as pessoas parassem de assistir — ele disse. — As pessoas trazem seus próprios pontos de vista e supõem coisas sem qualquer conhecimento a nosso respeito, mas já passamos do ponto de ficarmos irritados com o que eles dizem.

— É um pouco como criticar a rainha por ser a rainha — ele concluiu. — Estamos apenas felizes que o nosso vídeo tenha atingido o maior sucesso do mundo.

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