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No passado, na Europa, não era incomum ver a repentina e inesperada partida de um monarca desatar um período prolongado de reivindicações e contrarreivindicações ao trono, até que um dos pretendentes finalmente prevalecesse. Aparentemente, algo assim ocorreu depois que engenheiros realizaram uma extensa remodelação da lendária Torre Inclinada de Pisa, reduzindo notavelmente a sua inclinação.
Embora isso tenha garantido que a torre sobreviva para deleitar futuras gerações de turistas, os reparos deram fim ao seu status de torre mais inclinada do mundo, fazendo com que ela fique perto do meio da lista das concorrentes e provocando uma disputa, ainda hoje acirrada, pela coroa.
Parecia que o problema tinha sido resolvido vários anos atrás, quando a editora do Livro Guinness dos Recordes, de Londres, concedeu o título de "torre mais inclinada" a uma torre construída ao lado de uma igreja de tijolos vermelhos localizada na cidade de Suurhusen, ao Norte da Alemanha. Ela está inclinada a um ângulo de 5,19 graus, em comparação aos 3,9 graus da torre de Pisa.
Depois, porém, surgiram outros concorrentes. A revista alemã Der Spiegel, em um artigo publicado no ano passado, enumerou ao menos outras três torres alemãs que poderiam entrar na briga pelo título do Guinness. Em um centro de esqui suíço, mais conhecido pelo cashmere que pelas vacas, inclina-se uma torre que, dizem alguns, deve fazer jus ao título. A estrutura do século 12, conhecida como torre de St. Mauritius por conta de uma igreja que ficava ao seu lado no passado, não só se inclina, mas o faz sobre um terreno que se movimenta, o que faz com que sejam necessários macacos hidráulicos para endireitá-la quase que anualmente.
Durante 35 anos, até sua aposentadoria, há quatro anos, Pietro Baracchi trabalhou no departamento de construção de St. Moritz e foi responsável pela segurança da torre de 32,91 metros. Observá-lo olhar para ela é como assistir a um pai que cuida com carinho de um filho excepcional, mesmo que um pouco diferente. Ele continua a visitar a torre uma vez por mês e usa instrumentos delicados instalados no interior dela para medir a sua inclinação. Em seguida, envia os resultados para a Universidade Técnica de Zurique, a maior cidade do país, onde um grupo de engenheiros elaborou uma conduta para evitar que ela venha abaixo.
— Esta torre é para nós o que a torre do sino é para Pisa, ou o que a de São Pedro é para o Vaticano — disse Baracchi, de 69 anos, ao seguir até o topo da torre quadrada, que, ao contrário da Torre de Pisa, é fechada ao público.
Quando um terremoto atingiu a região de Friuli, no nordeste da Itália, em 1976, a torre de St. Moritz se inclinou de modo tão perigoso que alguns dos fundadores da cidade acreditaram que tinha chegado o momento de derrubá-la.
— Em uma única noite, ela se inclinou tanto quanto se inclinaria em um ano inteiro — disse Baracchi.
A igreja que deu nome à torre foi demolida em 1893, quando se chegou à conclusão de que ela corria grande perigo de desabar. De acordo com o estilo típico dos suíços, o destino da torre foi submetido a uma votação geral da população adulta, e cerca de 84 por cento votaram para salvá-la.
Mesmo antes do terremoto, suportes horizontais de concreto armado foram instalados abaixo da base da torre, para estabilizá-la. Então, em 1983, foram utilizados elevadores hidráulicos para endireitar ligeiramente a torre, além de acolchoamentos, inseridos abaixo da estrutura, para garantir ainda mais a segurança. Em 2005, repetiu-se a instalação de elevadores hidráulicos para corrigir a inclinação e, atualmente, planeja-se uma outra correção.
— Eu não sei se esta é a torre mais inclinada da Europa, com seu ângulo de inclinação de 5,364 graus — escreveu Alexander Puzrin, da Universidade Técnica, por e-mail. — Estamos planejando uma nova campanha de ajuste vertical para 2013 — disse ele.
As torres se inclinam por diferentes razões, escreveu Puzrin, mas a torre de St. Moritz se inclina porque a estrutura e toda a vizinhança em torno dela ficam basicamente em cima de um deslizamento de terra que se move inevitavelmente em direção à margem do lago em que se encontra St. Moritz.
Recentemente, foram instalados três sismógrafos, incluindo um na parte inferior e um no topo. Quando começarem a fazer registros no final do ano, eles vão enviar dados sobre a inclinação da torre diretamente para os peritos de Zurique. Baracchi diz que vai continuar fazendo visitas mensais.
O deslizamento, disse Puzrin, que é de aproximadamente 1,600 metros de comprimento e 800 metros de largura, pode chegar a até 45 centímetros por ano. Nadia Scartaccini, que se mudou para cá da Itália há 26 anos e trabalha na sapataria Bata, logo abaixo da torre, não duvida disso.
— Temos que sair daqui até o final do ano — disse ela, depois de levantar um canto do tapete para mostrar fissuras irregulares no chão de concreto.
Outros edifícios mais modernos do bairro foram construídos para suportar o deslizamento de terra. Contudo, os edifícios mais antigos serão demolidos para permitir que a prefeitura insira concreto na área que sofre de deslizamento, desacelerando seu movimento.
As calçadas e ruas revelam um asfalto quebrado, onde o movimento descendente da terra tem forçado a subida do solo abaixo delas. No ano passado, foi necessário substituir a tubulação elétrica e hidráulica da área. Pisa, por outro lado, não sente ameaça alguma vinda de Suurhusen, St. Moritz, nem de qualquer outro lugar.
— Francamente, não tínhamos ouvido nada sobre isso — disse Daniela Purchielli, diretora de Turismo do governo da cidade de Pisa, por telefone. — Nossas estatísticas estão aumentando — completou.
No ano passado, mais de 426 mil pessoas visitaram a torre, em comparação às 402 mil do ano passado. Ninguém conta o número de visitantes que vão a St. Moritz no duelo da torre inclinada. Questionada sobre se a cidade tinha abordado a editora do Guinness para falar do reconhecimento de sua torre, Sara Roloff, diretora de relações públicas para a organização do turismo local, respondeu: "Não é do meu conhecimento". No entanto, a torre permaneceu sendo, disse ela, "um dos emblemas" de St. Moritz.
— Para nós, ela estará sempre lá, com sua história colossal — disse ela.
Ludwig Guertler, de Berlim, segurava uma prancha de snowboard enquanto aguardava uma viagem de ônibus que o levaria às pistas. Ele disse que estava em St. Moritz a negócios, hospedado em um chalé não muito longe da torre, mas que apenas recentemente percebeu que ela é inclinada.
— Esta é a primeira vez — disse ele, olhando para cima.
Outros visitantes ficaram surpresos com o fato de que alguém não reparou na inclinação.
— Nós acabamos de esbarrar nela. Nós não sabíamos que ela existia — disse Alessandro Barzaghi, 37 anos, um chef de cozinha italiano que estava de férias aqui. — E imagine que eles queriam demoli-la!
A advogada Francesca Buttini, que acompanhava Barzaghi no passeio, disse duvidar que Pisa tenha motivos para se preocupar. "Pisa, por outro lado", disse ela, jogando as mãos para cima. "é algo totalmente diferente."
Em certa medida, na verdade, a concorrência em si não tem sentido. Se não fosse pela intervenção humana, algumas das principais torres concorrentes, como Pisa e St. Moritz, estariam reduzidas a escombros há muito tempo (acredita-se que a torre de Suurhusen é bastante estável).
Em 2005, a torre de St. Moritz se inclinou em um ângulo de 5,4 graus a mais que a dona do título do Guinness, Suurhusen, mas se inclinou novamente a um lugar mais seguro, de 5,08 graus. Puzrin disse que não permitiria que a torre se inclinasse para além dos 5,36 graus antes de corrigir a inclinação.
Mas isso não quer dizer que a disputa pelo título da torre mais inclinada não tenha consequências. Frank Wessels, pastor da igreja de Suurhusen, disse que os benefícios foram surpreendentes.
— Nós sempre tivemos turistas — disse ele por telefone da Alemanha. — Mas agora temos 10 vezes mais. Até grupos do Japão e da Coréia do Sul têm vindo.













