Adorno corriqueiro em sacadas e janelas, uma faixa de uma bixo 2013 disputa espaço com cartazes de preços e ofertas na Avenida Azenha, em Porto Alegre. Presa a uma banquinha de camelô, a tira de tecido é uma auto-homenagem da estudante de 64 anos Vera Francisca Machado Vieira, aprovada para o curso tecnológico de Design de Interiores, do Centro Universitário Metodista do IPA.
Quase três décadas após ter concluído o Ensino Médio, no Colégio Estadual Padre Rambo, da Capital, Vera cogitou a ideia de concorrer a uma vaga no Ensino Superior. Com a filha e os netos já criados, foi até o IPA, no fim de novembro do ano passado, para pedir informações sobre como fazer vestibular. Com tanto tempo afastada do meio estudantil, não tinha certeza se ainda estaria apta a se candidatar.
— Pretendia fazer no ano seguinte. Cheguei lá, me pediram um documento, começaram a pegar meus dados. Confesso que chegou uma hora em que eu nem sabia mais o que estava acontecendo. Aí, perguntei: "E a inscrição?". "Já está feita", disseram. "A prova é no sábado".
Faltavam três dias. Entusiasmada, Vera também se inscreveu no processo seletivo da UniRitter — no qual também foi aprovada, mas para o curso de Design de Produto.
— Acho que o que me ajudou foi a redação. Também usei a estratégia da eliminação nas perguntas. Sempre tinham duas ou três opções que não poderiam estar corretas.
Desde que pendurou a faixa em sua banquinha, muitos dos que se aproximaram não pediram por um fone de ouvidos ou por uma presilha de cabelo. "A Vera da faixa sou eu" é o que costuma dizer antes de ser parabenizada.
— Uma vez, veio um homem bem vestido, que me deu parabéns e disse que era meu colega. Perguntei se ele também tinha passado no vestibular, e ele respondeu: "Não. Sou designer de interiores há 10 anos". Aquilo me deixou muito feliz. Até pensei: "Será que sou eu mesmo?".
Vera relata que as manifestações dos desconhecidos servem como um incentivo. Por vezes, percebe que alguns passantes miram o celular e tiram uma foto.
— Parece que o pessoal acha estranho um camelô ter estudo — cogita, sem aparentar descontentamento.
Projeto futuro: móveis feitos de reciclagem
Sem bolsa, Vera é quem paga os R$ 750 da mensalidade, além de custear o material para os trabalhos. Com aulas três vezes por semana, pela manhã, a estudante e vendedora passa menos tempo trabalhando, o que afeta diretamente seus rendimentos. Ainda assim, Vera garante que, enquanto tiver condições, vai continuar o curso de dois anos de meio. O dia a dia das aulas — que já se iniciaram — é uma grande motivação.
— É um curso bem diferente. Tem que sentir texturas, se imaginar dentro de ambientes. Vamos começar a trabalhar com plantas — empolga-se a aluna mais velha da turma, que sonha com as imagens das revistas de decoração que coleciona.
Para compensar a pouca prática, Vera aproveita todos os instantes possíveis para treinar seu traço. Mesmo tendo recém começado, ela já planeja o futuro.
— Quero produzir móveis reaproveitando materiais para reciclagem.
Enquanto não recebe o primeiro pedido para decorar um ambiente, Vera prepara seus trabalhos de aula durante a noite:
— É muito café preto — diverte-se a estudante.
Saiba como é o dia a dia da universitária Vera Francisca
> As aulas no curso de Design de Interiores ocorrem três vezes por semana, às terças, quintas e sextas-feiras, das 8h10min às 12h30min
> Depois das aulas, Vera vai almoçar em casa, onde chega por volta das 14h, após uma viagem em dois ônibus
> Moradora do bairro onde trabalha, costuma montar sua banca em torno das 15h, em uma esquina na junção das avenidas Azenha, Princesa Isabel e Professor Oscar Pereira
> Conforme o movimento do comércio, Vera trabalha por duas ou três horas
> Às segundas, às quartas e aos sábados — dias em que não tem aula —, Vera trabalha em dois turnos, pela manhã e à tarde
> Com poucas folgas, Vera aproveita os domingos e as noites para estudar e praticar desenho













