Leituras obrigatórias07/11/2012 | 15h35

Confira detalhes sobre "Esaú e Jacó", de Machado de Assis

Professor Sergius Gonzaga apresenta considerações sobre livro que será cobrado no vestibular da UFRGS

Enviar para um amigo

Em aparência tão somente a crônica de uma família da burguesia carioca, mesclada com o registro de fatos históricos significativos da história brasileira da época (Abolição, República), o romance Esaú e Jacó ultrapassa este realismo trivial e converte o drama dos irmãos que se odeiam em alegoria (realidade simbólica). Uma alegoria baseada na mitologia religiosa e na percepção machadiana de que as paixões humanas são irracionais e avassaladoras, sobrepondo-se ao intelecto e ao equilíbrio interior.

O que observar

1) Preste atenção à intrincada questão do narrador. Na advertência do livro, alguém (Machado?, o narrador?) adverte que o texto em questão era um caderno manuscrito, com o título de Último, encontrado junto a outros seis cadernos enumerados de I a VI, na casa do falecido conselheiro Aires.

O sétimo (Último) constitui a matéria de Esaú e Jacó. Só que Aires também é personagem do texto, ficando no ar a ideia de que haveria um narrador independente, com acesso a este diário. O narrador partilharia dos pontos de vista ali expostos por Aires, como se os dois fossem um só.

2) Lembre que o conflito permanente entre os gêmeos, Pedro e Paulo, que já brigavam no ventre da mãe, Natividade, talvez represente a guerra surda dos seres humanos, o choque das ambições e a intensidade brutal das paixões e dos atos individuais. Esta oposição entre os gêmeos materializa-se no fato de Pedro tornar-se médico e Paulo, advogado; Pedro monarquista e Paulo, republicano, e assim por diante.

3) Objeto do amor dos dois gêmeos, Flora Batista, a protagonista feminina, é uma "inexplicável", na definição do conselheiro Aires. É a síntese personificada da ambiguidade, pois não os encoraja nem os rejeita, e tem estranhos delírios nos quais as figuras dos dois irmãos se fundem.

Ela deveria escolher um deles para se casar, mas gosta de ambos e não se decide, acabando por adoecer. A doença progride e ela morre. Morre de indecisão, diz o crítico Augusto Meyer.

Última dica

Não deixe de reler os capítulos 62 e 63 do romance, são os mais famosos do livro. Neles, Custódio tenta obter o auxílio de Aires para decidir o que colocar na tabuleta nova de sua confeitaria, até então chamada Confeitaria do Império, pois a República recém fora promulgada. Os argumentos do confeiteiro são hilariantes porque mostram a absoluta subordinação da ideologia e das questões políticas ao interesse pessoal, aliás um dos motivos centrais da obra de Machado de Assis.

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga perfis de ZH no Twitter

Veja também

clicRBS
Nova busca - outros