Crônica de Praia27/02/2014 | 06h04

Uma tomada no fim do túnel

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Uma tomada no fim do túnel Eduardo Uchôa/Agência RBS
Foto: Eduardo Uchôa / Agência RBS
Santa Terezinha era um pacato balneário do Litoral Norte até a chegada de cinco moleques, alguns instrumentos musicais e amplificadores. Não era fevereiro, mas a edícula da casa de veraneio, transformada em sala de ensaio, fervia.

Os ouvidos também eram torturados, por motivos óbvios. Eram tantos decibéis em poucos acordes que o zunido virou trilha sonora de um verão. Quando saíamos da salinha onde as janelas tremiam por horas a fio, parecia que uma granada tinha acabado de explodir – a cabeça imersa em um “piiiiii” infinito.

Dá para dizer que eram ensaios onde o “público” não ficava inerte. O som da caixa da bateria encanava no Nordestão e atravessava quilômetros, deixando a microfonia, os acordes e as vozes algumas quadras antes. Não tinha como ficar alheio. E, embora o punk rock fosse mais para melódico do que gritaria, era bem “invasivo”. Reverberava vidraças, fazia bebês chorarem, cachorros latirem, a Kombi do picolé passar despercebida. Quando dava problema, nunca discutíamos – já estávamos sem voz de tanto gritar nos péssimos microfones de karaokê, que eram ligados na caixa de som do baixo.

Energia era mato. Loucos para gastá-la, percorremos a praia atrás de uma fagulha de rock e um palco. Passamos pelo fliperama, ponto solitário na vida noturna do pessoal da mesma idade. Nada. Sem outras opções, voltamos desolados a caminho de casa. Em Santa Teresinha, a Avenida Paraguassú perde – em determinado ponto – o posto de mais importante da praia. Quando chegamos nesse cruzamento, avistamos um trailer de xis e cachorro quente. O ponto era bom. Não foi à toa que o seu Marquinhos trocou os LPs que botava a girar nos bailes da praia nos anos 1970 pela chapa. Ele comoveu-se com o nosso pedido de uma tomada emprestada. Tocamos todo o repertório, a maioria de músicas próprias, para uns cinco amigos, Marquinhos e mais alguns curiosos.

Aquilo nos motivou de maneira impressionante. Havia infinitas tomadas a serem emprestadas naquele território quase virgem de atitude, de rock pauleira, de rodas punk. O avô do Otávio, assim como toda a família dele que nos aguentava na casa, gente finíssima, nos dava o maior apoio, sem reclamar do barulho. Foi no Escort bordô dele que fomos a Tramandaí, capital das praias e cheia de novas tomadas. Tentamos um comício político – não entenderam nosso pedido (hoje, nem eu entendo). Voltando, avistamos a estrutura de um festival, onde iam tocar Papas da Língua, Comunidade Nin Jitsu, e outros conhecidos da época. Tentamos convencer um organizador, que nos ignorou. Mal tínhamos aquele bigode fininho. Não inspirávamos confiança.

Tristeza no carro. Silêncio na passagem pelo resto de Imbé, avenida central de Mari...luz! Luz no fim da avenida. Luz, palco, estrutura, gente. Não era possível. Chegamos subindo no palco, empolgados, conversamos com um roadie, com outro, miramos o produtor do evento e o convencemos a abrir o festival, que ia receber outras bandas independentes. Eram cerca de 17h quando estávamos no palco, e tocamos uma dúzia de sons. Final de tarde, chocolatão ao fundo, foi a glória. A vida mudou depois disso. Batemos em tudo que era porta, pedimos tomadas, crescemos, viramos profissionais, mas de outros tipos de arte. E, quando hoje alguém diz que não vale a pena tentar algo, procuro uma tomada no fim do túnel e, normalmente, ela esta lá.

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