A indesejada herança do verão27/02/2014 | 06h03

No fim da temporada, praias ficam repletas de objetos que deveriam ter ido para a lixeira

Os atos, aparentemente inofensivos, contribuem para o acúmulo de lixo nas areias, e os detritos demoram anos para se decompor

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No fim da temporada, praias ficam repletas de objetos que deveriam ter ido para a lixeira Mauro Vieira/Agencia RBS
EmTramandaí, uma tampa de garrafa e váras bitucas de cigarro dusputam espaço na areia Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS

Acena é corriqueira: sentado, em pé ou deitado à beira-mar, o veranista dá suas tragadas e, quando termina, arremessa o toco de cigarro na areia. O mais discreto deixa a bituca cair e a enterra com os pés. Em outro ponto da praia, um grupo faz um piquenique e um pedaço de plástico voa, sumindo em meio aos milhares de grãos arenosos.

Os atos, aparentemente inofensivos, contribuem para o acúmulo de lixo nas areias. Os detritos demoram anos para se decompor e causam danos ambientais graves, como a morte de aves e tartarugas, além de problemas à saúde humana, em razão da propagação de bactérias.

No Litoral Norte, o “microlixo” – tampas de garrafas, canudinhos, palitos, talheres de plástico, chicletes, papéis de bala, isopor e argolas de latas – pode ser visto em abundância. Depois do veraneio, ele fica nas areias como herança da temporada, como Zero Hora constatou em dois dias de caminhadas em Torres, Tramandaí, Imbé, Capão da Canoa e Xangri-lá.

– Esse tipo de lixo é cumulativo e, frequentemente, confundido com alimento por tartarugas e aves. Eventualmente, os animais morrem de tanto comer resíduos. Eles são atraídos pelos formatos, aromas e cores – diz o doutor em biologia e professor da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) em Torres, Christian Linck da Luz.

Microlixo causa a morte de animais

Muitas tartarugas morrem asfixiadas ao confundir sacolas plásticas com águas vivas, seus alimentos naturais. Já os pássaros podem encher o estômago de materiais químicos e perder a capacidade de evacuação.

– As pessoas que largam o lixo, acham que ele vai sumir ou têm a sensação de que prefeitura, voluntários e órgãos farão a limpeza. Elas precisam entender que não vai adiantar nada se continuarem poluindo. Quando passa o veraneio, o microlixo fica disponível em excesso para os animais e todo ecossistema é desequilibrado – comenta Gil Pereira, 38 anos, vice-presidente da Associação de Surfistas de Imbé, entidade que faz mutirões anuais para retirada de dejetos.

As praias vêm se adequando a um acordo firmado com a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), mas a remoção dos entulhos pequenos deixa a desejar em 2014. O foco das prefeituras é a coleta de detritos maiores, o que é elogiado por veranistas:

– Meu restaurante compra sacolas para o pessoal levar e, por incrível que pareça, elas saem mais do que os lanches. Isso porque a pessoa não quer deixar lixo na praia, está conseguindo mudar os hábitos. Os quiosques também se conscientizaram e ajudam com a varredura de suas áreas, e toda a manhã vemos caminhões trabalhando na orla – afirma José Lima, 59 anos, dono do Bar Gaivota, em Tramandaí.

– Esse verão está razoável. É pouca gente que ainda deixa coisas na praia. Notamos um aumento de consciência. O lixo menor é difícil de detectar. Quem despeja não aparece – complementa o salva-vidas Antônio Ricardo de Aragão Marques, 42 anos.
Conforme dados das prefeituras e da Ulbra, a coleta diária de lixo no verão alcança, em média, 180 toneladas em Tramandaí, 150 em Capão da Canoa e 70 em Torres, números até 500% superiores aos meses de baixa temporada. Não há dados específicos sobre a quantidade de microlixo. Entretanto, basta uma simples caminhada para verificar que, de norte a sul do litoral gaúcho, ele é presença constante nas areias.

O IMPACTO AMBIENTAL
A decomposição do lixo depende das condições do ambiente em que ele foi despejado e de sua composição. Alguns itens levam anos para desaparecer, caso do microlixo. Por isso, antes de usar a areia como lixeira, deve-se pensar no prejuízo que isso pode ser causar
• Papel – seis meses
• Fósforo – seis meses
• Pano – um ano
• Bituca de cigarro – dois anos
• Chiclete – cinco anos
• Copinho plástico – cem anos
• Garrafa plástica – mais de cem anos
• Latinha de bebida – mais de cem anos

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