Casas abertas, crianças na rua, pais despreocupados e uma legião de vizinhos que se conhecem pelo nome. Não há quem nunca tenha se espantado pela constelação de condomínios que se multiplica às margens da Estrada do Mar, no Litoral Norte. O primeiro deles foi erguido em 1994. Quase duas décadas depois, são pelo menos 40 empreendimentos na faixa que vai de Atlântida Sul a Torres — e um punhado está por vir. Mas o que é que eles têm para atrair tanta gente?
— Representa o veraneio que tive na infância. As crianças ficam soltas, andam de bicicleta, brincam na rua – considera a empresária Sheyla Ciancio, 50 anos, que tem casa em condomínio de Atlântida há seis anos.
Aliando o desejo de conforto à necessidade de segurança, os gaúchos aderiram de vez ao conceito proposto por esses verdadeiros bairros planejados — que, na maioria das vezes, ficam mais próximos ao concreto do que ao mar. E, para garantir o seu lugar ao sol, desembolsam valores que variam de R$ 250 mil a mais de R$ 10 milhões. É que até mesmo os condomínios são segmentados e pensados para públicos e bolsos diferentes.
— Hoje a velocidade de venda está mais lenta em função da grande oferta, mas ainda há um amplo mercado para os empreendimentos — analisa o presidente da Associação dos Corretores de Imóveis de Capão da Canoa, Igor Santos.
Comodidade é a palavra-chave. Para fazer o veranista se sentir em férias desde o momento da compra, construtoras oferecem casas totalmente mobiliadas e decoradas — que incluem lençóis estendidos nas camas, toalhas postas nos banheiros e garrafas de espumante na geladeira. Basta entrar com o corpo — e o dinheiro. Uma residência desse padrão foi vendida no início de janeiro por R$ 8 milhões. A casa conta com seis suítes, adega climatizada, banheiras de hidromassagem e uma sala de estar com 12 ambientes.
Com tantos atrativos, falta tempo para ir à praia. Entre os condôminos, é comum encontrar pessoas que arriscam os pés na areia apenas nos últimos dias de férias. O cenário composto por nordestão, mar bravo e água gelada é substituído pela prática de esportes aquáticos nos lagos artificiais, campeonatos de tênis entre vizinhos e treinos na academia com professores especializados. Só sai lá de dentro quem quer.
Não é o caso da arquiteta Dora Lovato, 47 anos, que há 14 veraneios passa as férias na casa do condomínio localizado à beira-mar de Xangri-lá. Próximos à orla, os moradores podem contar com as cadeiras e guarda-sóis disponibilizados especialmente para eles — além de desfrutar do serviço de recreação para os filhos:
— As crianças brincam tranquilamente. Elas saem de manhã e voltam só para o almoço ou à tardinha.
Sheyla (com a filha Rafaela): "Representa o veraneio que tive na infância"
Foto: Ricardo Duarte / Agência RBS
Inspiração surgiu nos condomínios da Flórida
Tudo começou com viagens ao Exterior enquanto era diretor de uma transportadora. Durante passagens pela Flórida, no sudeste dos Estados Unidos, encantou-se com o conceito de condomínios fechados que ofereciam serviços e clubes aos moradores. Uniu o que viu lá fora com a falta de atrativos das praias gaúchas e, com uma pitada de boa sorte e uma excelente oportunidade, construiu o primeiro condomínio fechado do Litoral Norte, em 1994: o Xangri-lá Villas Resort. A história do presidente do Grupo Capão Novo, Elmar Ricardo Wagner, confundese com a expansão das praias gaúchas.
— Hoje, há uma dificuldade em se aprovar os empreendimentos e conseguir as licenças, o que tem levado muitas empresas a pensarem na construção de condomínios em Santa Catarina — conta.
O empresário — que participou da construção de 11 projetos no Litoral — foi o idealizador da praia de Capão Novo. Em 1981, começou a dar forma às mais de 5 mil casas no balneário planejado — que tinham um diferencial inédito: na quadra em frente ao mar, foi desenvolvido um grande parque com estrutura de lazer para os veranistas. Na época, quadras esportivas, palcos para shows e clubes sociais ainda eram novidade por lá.
Passado o tempo, a iniciativa de Wagner se comprovou um sucesso. Na época de lançamento, o melhor terreno vendido no segundo condomínio idealizado pelo grupo saía por R$ 50 mil. Hoje, a mesma área não é vendida por menos de R$ 800 mil – uma valorização de mais de 1000%. O veterano no ramo ainda carrega o plano de levantar o maior condomínio do litoral gaúcho, com 204 hectares – o que deve se concretizar ainda nos próximos anos.













