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Leia na areia01/02/2013 | 17h01

Luiz Antônio Araújo: O verão de 73

Há exatos 40 anos, ganhei de presente de meus pais o primeiro verão carioca

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Luiz Antônio Araújo

luiz.araujo@zerohora.com.br

Há exatos 40 anos, ganhei de presente de meus pais o primeiro verão carioca. E o verão carioca, logo me dei conta, era diferente daquele que eu conhecia. Para começar, não durava três meses, e sim um ano. Quando queriam me convencer das vantagens de viver por dois anos no Rio, os adultos diziam que lá eu poderia comer picolé o ano inteiro. E, por algum tempo, o fato de morar na capital mundial do picolé tornou-se para mim uma ideia obsessiva. Lá de onde eu vinha, os picolés eram de uma única marca, só se podia saboreá-los no verão e, ainda assim, sob severas e incompreensíveis restrições. No Rio, os vendedores de picolé circulavam pelos parques, praias e estádios de futebol, com seus carrinhos e uniformes brancos, como se fosse a coisa mais natural do mundo. A cada dia, apareciam marcas e sabores novos. E, sim, havia anúncios de picolé na TV. No Rio, respeitavam-se os direitos fundamentais.

Outra diferença era a praia. Sempre imaginei que praia era algo distante, que só se tornava acessível mediante uma complicada logística da qual meus pais detinham o segredo e que incluía uma longa e desgastante viagem até o Litoral. No Rio, não se ia à praia: pegava-se praia. Ou praia era algo que acontecia, como na expressão “domingo vai dar praia”. Nos finais de semana, seguíamos para lugares como Barra da Tijuca e Joá, que, na minha memória, serão sempre locais idílicos, ainda que mais tarde tenham sido tragados pelo boom imobiliário. Foi lá que assistimos àqueles que devem ter sido os primeiros voos de asa delta no país. E havia o prazer adicional do deslocamento, fosse na ida, com o sol batendo de frente nas montanhas, fosse na volta, quando as luzes dos túneis começavam a se acender.

O Rio é um espetáculo para todas as idades, mas, quando se tem cinco anos, como eu tinha, pode ser ainda melhor. As bancas de revista pareciam transbordar gibis e álbuns de figurinha. No Maracanãzinho, havia atrações como Holliday on Ice e Disney on Parade. A TV exibia Gente Inocente e Vila Sésamo em preto e branco — motivo que fez os produtores do seriado americano mudarem a cor de Garibaldo de amarelo para azul na versão brasileira. Numa fase dourada, o Flamengo foi campeão invicto da Taça Guanabara, com uma equipe na qual brilhavam Zico, Paulo Cesar, Fred, Rodrigues Neto e, de lambuja, Dadá Maravilha. E foi contra o Flamengo que Tostão, jogando pelo Vasco, marcou o último gol da carreira, naquele verão de 1973. A cidade se movia ao som de uma trilha sonora que incluía O Vira (Secos & Molhados), Tristeza Pé no Chão (Clara Nunes), Mosca na Sopa (Raul Seixas) e Rock’n’roll Lullaby (B.J. Thomas). Era um Rio sem metrô, sem Ponte Rio- Niterói e sem Sambódromo. Era um Rio sem arrastão e sem milícia. Era um Rio. Era.

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