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Prosa de verão11/02/2013 | 06h11

Cláudia Laitano: sem censura

O tempo em que ir para a praia era como ganhar licença para pular estágios da infância e da adolescência

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Houve um tempo em que ir para a praia era quase como ganhar uma licença provisória para pular estágios da infância e da adolescência. Eram longos os verões — e muitas as possibilidades de testar os limites da liberdade sazonal proporcionada pela rotina desencanada da casa da praia, comandada por mães que não trabalhavam e pais que apenas visitavam a família nos fins de semana.

Ao menino de sete anos era permitido cobrir de bici (ninguém dizia bike...) um território muito mais vasto do que aquele usualmente autorizado na cidade — porque na praia não havia trânsito para temer nem estranhos para não dar papo. O guri de 10 podia frequentar as reuniões dançantes da SAT ou da SAPI sem se preocupar se alguém ia cobrar os 13 anos anunciados no cartaz da festa. Já o de 13 dava voltas na quadra dirigindo o carro do pai absolutamente convicto de que não estava fazendo nada de errado. Para os adolescentes, a liberdade era praticamente sem limites: podiam passar a noite em claro com a turma, beber as enjoativas batidas com álcool vendidas nos quiosques e dar amassos no portão de casa sem se preocupar com as broncas, já que os pais estavam tão distraídos jogando canastra com os vizinhos que nem lhes ocorria se preocupar com o que a gurizada andava fazendo à noite.

De todas as regras burladas durante o veraneio, a mais curiosa era a Lei Áurea do Cine Coimbra, que sem como nem por que abolia a censura dos filmes proibidos para 18 anos durante o veraneio. Estávamos nos anos 70, e censura não era coisa para se levar na flauta. Anda assim, as portas do Cine Coimbra estavam sempre abertas para quem pudesse pagar o valor do ingresso, não importando se o filme em cartaz era Bambi ou o Império dos Sentidos.

Foi assim que, levada por primos mais velhos, acabei assistindo a "Papillon", um filme "18 anos" que fez muito sucesso na época e que me levou a ter pesadelos por muitas noites seguidas com a cena em que o personagem principal é obrigado a tomar uma sopa de xixi com baratas. As sessões de filmes "proibidões" prosseguiram ao longo de todo aquele verão. De dia, eu me divertia construindo elaborados castelos de areia e defendendo minha cidadela das boladas dos meus irmãos mais velhos. As noites eram reservadas para o tradicional sorvete na Emancipação seguido por um filme censura zero anos no Coimbra.

Apesar de ter guardado alguns títulos, como "Papillon", que eu faria questão de rever mais tarde para entender do que se tratava a história e para confirmar que a sopa de xixi não havia sido uma alucinação, ou "O Roubo das Calcinhas", que hoje soa quase pueril, mas na época sugeria transgressões inimagináveis, lembro menos da trama dos filmes ou do que eu consegui entender do que da pura empolgação com o fato de estar fazendo um programa junto a uma turma mais velha. Como prima caçula, eu estava acostumada a tentar pescar o sentido de conversas cifradas e a ser escanteada de qualquer programa que dispensasse a presença de adultos. Naquele verão, por descuido, deixaram uma basculante aberta e eu pude espiar, na pontinha dos pés e sem entender muita coisa, o que era ser gente grande.

E de tudo o que eu vi — e não entendi — sobrou apenas a sopa de xixi.

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