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Prosa de Verão04/02/2013 | 06h02

Cláudia Laitano: o primeiro verão do resto da minha vida

A história da aventura de talvez uma das últimas gerações "paranoia free" do planeta

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Não foi exatamente uma aventura que mereça entrar para o Guinness de façanhas radicais, mas teve lá sua cota de percalços (superados não sem o devido susto e a subsequente resolução, até hoje irrevogada, de nunca mais abusar da sorte) e farra (talvez superdimensionada, em retrospecto, pela ausência de muitos termos de comparação na época). Pegar carona com as amigas até Santa Catarina e acampar até a grana acabar significava, então, não apenas perseguir um já distante eco de hipismo tardio, mas despedir com a devida solenidade da infância naquele que seria nosso último verão antes da faculdade.

Pegar carona com pouca grana no bolso e disposição supostamente ilimitada para o improviso não é um plano de férias que se preste a muito planejamento. Alguém na turma conhecia a prima da amiga de um ex-namorado que tinha ido até a Bahia no outro verão. Conheceu todo o Nordeste, ganhou uma grana vendendo sanduíche natural e ainda conheceu um cearense lindo, meio tipo a cara do Ednardo, sabe?, com quem até hoje se correspondia.

Nosso plano era mais modesto. Santa Catarina parecia a uma distância bastante factível, embora nos parecesse um destino quase tão remoto quanto a Bahia — quando não se pode sair de Cuba, Miami e Casablanca parecem igualmente distantes. Não passar fome nem frio seria o suficiente para considerarmos a empreitada um sucesso em termos de infraestrutura, portanto a ideia de enriquecer vendendo lanches em Bombinhas estava desde o início descartada. Quanto ao cearense parecido com Ednardo, bom, quem acampa na chuva é para se molhar.

Bem cedo na viagem, porém, percebemos o quanto faziam falta conhecimentos um pouco mais específicos sobre disciplinas práticas como "carregamento de mochilas for dummies", "psicologia para caroneiros: aprenda a identificar um maluco antes mesmo de ele parar o carro" ou "como dormir em uma barraca inundada sem perder a elegância e o pacote de bolachas". Estávamos tão preparadas para aquela viagem quanto para atravessar o Canal da Mancha a nado, mas o próprio desconcerto da coisa toda parecia dar a cada pequeno desastre cotidiano um ar de caos controlado que era exatamente o que estávamos procurando ao decidir abrir mão do conforto já desconfortável das férias em família. Tínhamos 18 anos, um nome no listão, toneladas de miojo na mochila, e Santa Catarina era nosso Timbuktu recém-conquistado.

Em retrospecto, não me surpreende que nossos pais tenham permitido a viagem (a parte da carona foi omitida no momento da aprovação do roteiro, evidentemente) e nem mesmo que achássemos suficientemente seguro embarcar no carro de estranhos. Fomos talvez a última geração "paranoia free" do planeta, com a aids, a violência descontrolada e todo um repertório de perigos não catalogados esperando pelos pais de adolescentes logo ali na esquina.

Nenhum outro verão seria tão caótico, surpreendente e desencanado quanto o primeiro verão do resto de nossas vidas.

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