Meio-dia, hora do almoço. Lá vêm eles a papar os peixes na Barra do Rio Tramandaí. Atração de Imbé há décadas, os botos desapareceram no verão de 2009, retornaram tímidos no ano seguinte e hoje continuam a encantar os visitantes. A gurizada postada à beira do rio, no trecho onde se liga ao mar, aponta o dedo. Uma rapaziada tenta fotografar o ágil mamífero. Tarefa árdua até para um fotógrafo profissional.
— Eu não vi.
— Está lá!
— Eu vi! EU VI! EU VIIIII!
A visão dos botos tornou maiúscula a alegria de Alex Pinheiro Mello, cinco anos. A avó dele, Eluza Pinheiro, 58 anos, sorria na primeira visita do neto à Barra para ver os botos.
Velhos aliados dos pescadores, cerca de 10 botos, em média, alimentam-se na região. O número tem se mantido estável há décadas. Dizem os tarrafeiros que o bicho balança a cauda para juntar os cardumes. Quando ele emerge e bate com a cabeça na água, é hora de lançar a tarrafa. O movimento dá certo. O pescador captura os peixes que fogem do boto e o boto captura os que escapam da tarrafa. Todos saem satisfeitos.
Crianças se postam à beira do rio para ver o mamífero
Foto: Félix Zucco
No início da tarde de ontem, o tarrafeiro João Carlos da Luz, 49 anos, pegou entre 30 e 40 peixes após o mergulho do boto. Depois que o animal trocou de lugar, a tarrafa esvaziou. O boto adentrou a Barra, onde havia um monte de espectadores ansiosos por sua aparição. Foi um sucesso. O sucesso mais meloso do verão:
— Que coisa mais amada!
— É lindo!
Turismo de massa prejudica os animais
Em 2009, nenhum boto foi avistado na Barra do Rio Tramandaí entre janeiro e fevereiro. A constatação fez parte de uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no âmbito do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar).
A poluição, o barulho e o movimento em torno do local espantaram a dezena de botos que aprendeu a se alimentar na Barra em regime de cooperação com os pescadores. Falou-se muito, à época, do desaparecimento dos mamíferos.
— O fato de não aparecerem se deve ao impacto do turismo, que, ao longo do tempo, está sendo muito forte nos animais — afirmou o biólogo Maurício Tavares, do Ceclimar/UFRGS.
Curiosidades
Os botos foram batizados por pescadores e pesquisadores. Os animais existentes no local em 1992 eram chamados de Barata, Catatau, Lobisomem, Pomba, Bagrinho, Geraldão, Manchada, Coquinho, Galhamol e Boto Esquisito (que era um visitante esporádico)
Lobisomem foi encontrado morto em meados da década de 90. Ironicamente, morreu de lobomicose, uma doença que toma o corpo do bicho em forma de cracas, causada pela poluição
Em 1994, constatou-se que Geraldão era fêmea. Virou Geraldona. O mesmo ocorreu com Catatau. Mas esse continuou sendo Catatau. Hoje, são as duas fêmeas que, acredita-se, mantêm viva a linhagem que encanta gerações de crianças na Barra
Dos 10 botos existentes em 1992, restavam quatro em 2008: Geraldona, Catatau, Bagrinho e Coquinho. Outros cinco botos passaram a fazer parte do grupo, entre filhotes e novos agregados
Fonte: Maurício Tavares, biólogo do Ceclimar/UFRGS
Detalhe ZH
Identificação pelas nadadeiras dorsais
A identificação dos botos é feita pelas marcas em suas nadadeiras dorsais. Com o passar dos anos, os ferimentos causados por enfrentamentos com outros animais e por redes de pesca, por exemplo, deformam as nadadeiras, tornando-as diferentes entre os animais.













