Ele chegou gotejante, como se num esforço para refrescar as veranistas mais sedentas que se bronzeavam na orla de Capão da Canoa, na manhã de ontem. Veio vagaroso, veio provocante e caiu, de um jeito doce, nas mãos de Laura Arigony, 19 anos.
— Perfeito! — resumiu a jovem, sorvendo-lhe com calma.
Do primeiro ao último gole, nem parecia que aquele coco tinha percorrido mais de 3 mil quilômetros desde Rodelas, na Bahia, para satisfazer uma das vontades mais praianas que se pode ter no Litoral Norte ou em qualquer outra faixa de areia do mundo: olhar para o mar, sob o sol sapecante, sentindo a água de coco refrescar por dentro.
Protegendo seu líquido, o coco de Laura teve de enfrentar três dias de sol, chuva e sacolejos na estrada até chegar ao depósito de Paulo Fernandes, 54 anos — o único fornecedor das frutas desde Mariluz até Capão Novo. Na distribuidora, no Jardim Beira-Mar, ele foi recepcionado por Noeli Fernandes, mulher de Paulo, que tirou-lhe do caminhão junto a outros 25 mil cocos que chegaram na semana passada, vindos da Bahia ou então de Vitória, no Espírito Santo.
Noeli já nem sabe há quantos anos a família passa o verão lidando com os cocos. Paulo não tem certeza, mas em uma conta breve, estima que já se passaram uns 15 anos.
— Tem horas que a gente não aguenta mais ver coco na frente. Tomar então... — desabafa Guilherme Fernandes, 20 anos, estudante de Engenharia de Controle e Automação, que, nesta época do ano, deixa Porto Alegre para ajudar os pais no Litoral.
De dezembro a março, a rotina da família é sempre a mesma. O primeiro caminhão carregado parte do depósito logo nas primeiras horas da manhã tendo como destino Mariluz. O segundo desloca-se no final da tarde, quando veranistas já não lotam mais as praias e segue por toda a extensão da orla, entrando em Atlântida Sul, percorrendo Atlântida, Capão da Canoa e Capão Novo.
De segunda a sexta-feira, cerca de 5 mil unidades são vendidas para os quiosqueiros. No final de semana, o número quadruplica, chegando a 20 mil cocos que se encontrarão deliciosamente gelados nas mãos dos mais diversos veranistas. E de Laura, que, até o final das férias, ainda deve pedir muito coco.









