Vocês podem conhecer por São Lourenço do Sul, mas aqui em casa chamamos de “So-ro-ren-ço!” – assim mesmo, com ponto de exclamação na sílaba final. Quem rebatizou esse município localizado a pouco menos de 200 quilômetros de Porto Alegre, à beira da Lagoa dos Patos, foi nossa filha de três anos, a Helena, em um episódio típico de dislalia infantil. A vó Regina vem anotando em um caderno os frutos do trocaletras. Tem uma palavra que ficou tão bonitinha na versão da Lelê que a Bia e eu nem nos preocupamos mais em corrigir: hipopótamo virou pompómito.
Sororenço já faz parte da vidinha da Helena. Foi lá, no dia 28 de janeiro de 2011, que ela começou a caminhar sozinha. Foi lá, em março de 2012, que ela tomou seu primeiro tombaço (um boléu, como a mamãe ensinou para a Lelê) – esfolou os joelhos, a bochecha e a testa nas pedrinhas da Fazenda do Sobrado. Foi lá, agora em dezembro, que ela perdeu o medo do mar.
Mar, claro, é liberdade poética. A água que banha a cidade é doce. Diz a Wikipédia: “São cinco quilômetros de orla com ondas cristalinas e rasas à sombra de plátanos, figueiras e coqueiros”. Onda é um exagero, e cristalino ignora o recente relatório da Fepam (as quatro praias – da Barrinha, das Nereidas, das Ondinas e do Camping – foram consideradas impróprias para banho). Mas sombra tem de sobra, principalmente nas Nereidas – também denominada Praia das Crianças, por ser tão convidativa para os piás.
À paisagem bucólica, somase o toque algo exótico da colonização alemã-pomerana. A prefeitura inclusive promove um roteiro de turismo rural com degustação de maischnaps (aguardente com ervas), schimiers e peito de ganso defumado. Sobrenomes mais ligados ao frio emergem entre os 43 mil habitantes. O supermercado é o Jepsen, a principal imobiliária é a Toni Neutzling, o armazém perto da nossa casa é o Schaun.
Nossa casa também é liberdade poética. Contamos com a hospitalidade do Tio Neco e dos vizinhos: de um lado, a família de um de seus filhos, o Dindo Gusto, do outro, a família do outro, o Mano – que, aliás, prepara asinhas de galinha marinadas no limão e no alho que são uma loucura. Comi 12 numa sentada. Para além do calor humano, há o animal – as cadelas Telha, Sandy e Anita e o gato Morc, todos devidamente afofados pela Lelê – e o refresco de uma piscina de plástico que o primo Arthur monta para a baixinha.
Com tantos atrativos, natural que, dia sim, dia não, a Helena venha com a proposta: “Vamos pra Sororenço?”.
Só duas coisas, sem contar essa bronca agora da Fepam, nos incomodam (e não são o Motolagoa, embora o encontro de motoqueiros que acontece nos meses de março seja para ouvidos fortes; nem a carência de bons restaurantes, com a honrosa exceção dos peixes e camarões do Tropicalis):
1) Voltar.
2) Voltar sem conseguir parar na Tenda do Gordo ou no Restaurante das Cucas, às margens da BR-116. Na ida, é barbada. Mas no retorno, falta justamente um retorno. Para o Gordo, não existe. Para as Cucas, estava tão esburacado em dezembro que nosso carro tomou um boléu.







