Havia outros bons dançarinos, mas ele era o melhor do baile. De brinquinho na orelha, corrente no pescoço, gel no cabelo e chiclete na boca, roubou a cena ao tirar para dançar uma garota sentada com os pais: saíram rodopiando feito piorras na pista, atraindo olhares de uma mulher que bailava com o filho de oito anos, de uma senhora que saracoteava com o marido de 70, de duas moças que dançavam juntas por falta de parceiro e de outras duas que dançavam juntas porque eram namoradas.
Todos os públicos admiravam Rodrigo Rossi, 21 anos, um mestre do vanerão e do xote. Porque todos os públicos se reúnem depois da novela — esse é o horário do baile, depois da novela — no Choppão, o bar mais agitado de Areias Brancas, um balneário de Arroio do Sal com seis quadras de largura. Na verdade, a expressão "todos os públicos" depende do ponto de vista.
— Aqui só tem gringo, cara — ressaltou Rodrigo, o pé de valsa, filho de um produtor rural de Caxias do Sul, lembrando que Areias Brancas mantém a maior concentração de descendentes de italianos do litoral inteiro.
Seu pai estava lá, de chinelo de dedo, bermuda e regata, comendo polenta frita orgulhoso das galanteadas do filho. Todas as noites, o baile do Choppão recebe famílias inteiras — tios, primos, avós e netos —, paqueradores de todo tipo, pobres e ricos, héteros e gays, salto alto e havaianas. A afinidade entre os frequentadores é a origem: moram na serra gaúcha e seus sobrenomes terminam com atti, ucci, ello, azzo, acchi etc.
— A entrada é franca porque, se cobrarmos 50 centavos, ninguém entra. Gringo é sovina demais — sorria um dos sócios do bar, Jonir Bolzan, natural de São Marcos, gringo que só.
Durante a tarde, bem antes do festerê, o dono de um quiosque em Areias Brancas, Juarez Mattos, se divertia com a suposta sovinice à beira da praia. Contou que, semanas atrás, vibrava quando um grupo de oito veranistas se aproximara da barraca para tomar água de coco.
— Enfim vou faturar — ele previu.
Mas ficou a ver navios quando a turma pediu um coco e oito canudos.
— Os imigrantes da Itália comeram o pão que o diabo amassou. O que a gente tem, a gente segura — justificou a veranista Geni Betoni, 58 anos, moradora de Ipê.
Essa herança cultural explica muita coisa. Ao meio-dia em ponto, por exemplo, a praia vira sempre um deserto, não fica ninguém por lá — só às 15h30min o movimento retorna, depois que todos almoçaram e emendaram uma cochilada. Afinal, a maioria é descendente de agricultores, e a hora do almoço é a hora do sol forte — que é a hora de deixar a lavoura para voltar mais tarde. Os italianos se criaram ouvindo horrores sobre insolação.
Falando em lavoura, sabe-se que o mais tradicional cultivo da Serra é o da uva. Pois a sorveteria de Adriana Petry, em Areias Brancas, só vende sorvete de uva — e de nata, para garantir uma combinação. Diz ela que, quando tentou vender de chocolate e morango, uma sorvetama acabou no lixo por falta de compradores. Adriana agora estuda, a pedido de clientes, uma receita de milkshake de vinho.
A praia de Areias Brancas ganhou vida na metade do século passado, quando um caxiense comprou terrenos na região e saiu a vendê-los para os amigos. Entre os veranistas, há semelhanças evidentes, mas também as diferenças saltam aos olhos. É só dar uma volta no baile do Choppão, onde os rodopios de Rodrigo, o pé de valsa, costumam roubar a cena. Mas apareça lá depois da novela, porque antes é vazio.
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