O dono da venda passa uma semana sem vender nada. E faz cinco anos que ninguém lhe compra uma ficha de sinuca — então a mesa fica lá, vadiando com a maresia no galpão de madeira. Na verdade, seu João só abre a venda quando lhe chamam na porta de casa. Porque é raro alguém comprar qualquer coisa na praia de Bujuru, onde apenas 20 famílias desfrutam um veraneio de antigamente a 75 quilômetros de São José do Norte, no litoral sul.
Para começar, não tem eletricidade. Nem água encanada. Nem asfalto nem internet nem celular. Logo na entrada do vilarejo, a 300 metros do mar, a equipe do Verão Off Road é recebida por Joca, que berra palavrões na varanda de uma casa de alvenaria. Ele assobia o hino do Inter e depois grita "Negro! Negro!" É o apelido de Fernando Paladino, 60 anos, que atende ao chamado do papagaio.
Fernando é de Porto Alegre, mas depois de se aposentar foi morar em Imbé com a mulher, Vera, em busca de sossego. Só que o sossego se evapora nessa época do ano, então eles fogem para Bujuru, onde pescam para comer e tomam banho em um chuveiro movido a álcool — é uma antiga engenhoca da fazenda do bisavô de Fernando, ainda eficiente para esquentar a água do poço.
— Isso aqui é um paraíso. Não tem trânsito nem fila de súper. Pela manhã, com caniço e carretilha, a gente pesca para o almoço e depois dorme na rede — orgulha-se Vera, com uma revista de palavras-cruzadas na mão.
Seu João, o dono da venda, cujo nome completo é João Claudino de Souza, 60 anos, não lamenta o movimento minguado. Não seria louco de viver só do comércio, sabe que quebraria em poucos dias. Sua principal ocupação é a pesca profissional:
— No meu armazém só tem bebida, alguma comida enlatada e, claro, papel higiênico. Que é para atender algum desespero.
A praia de Bujuru é um descampado de areia e grama a dois quilômetros do centro de Bujuru, um pequeno distrito de São José do Norte à margem da BR-101. Naquele vilarejo de 20 casas, afastado do centrinho, é fácil ver corujas atravessando o céu, galinhas botando ovos e cobras saracoteando no chão — a gurizada sempre dá uma averiguada no campinho antes de começar o jogo; vai que alguma cobra se apresente. Mas, como ninguém leva videogame nem computador para lá, que se danem todos os répteis.
Victória Dias, 14 anos de experiência em diversão, garante que, entre todos os lugares que conheceu, nenhum é melhor do que aquele para brincar de esconder. E é assim que a turma se diverte o dia inteiro — à noite, se reúnem na casa de um dos amigos para jogar canastra ou pif-paf. A luz, claro, é de gerador.— Nem queremos energia elétrica aqui. Porque, com ela, a especulação imobiliária vem junto. Nenhum luxo maior nos faz falta — garante Fernando Paladino, com o papagaio Joca empoleirado no ombro.
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