Camila Cavalli, 21 anos, tem aulas de paraglider há um ano sem maiores percalços. Ontem, foi trapaceada pelo vento. Estava em pleno vôo no Morro do Farol, em Torres, quando a pressão do vento baixou e ela teve de fazer um pouso forçado. Aterrissou no matagal e deu um baita susto em quem estava lá admirando a beleza de Torres sob um sol escaldante de 27°C.
A jovem é iniciante. O que aconteceu com ela não é a regra. Os mais experientes aterrissam no morro ou na praia, quando o mesmo ocorre, mas o imprevisto denuncia o período que o Litoral Gaúcho vem passando. O vento não está lá tão forte, comenta o instrutor de vôo Márcio Mota da Silva, 37 anos.
Em compensação, a ausência do Nordestão é comemorada pelos adeptos da modalidade. Na escola de paraglider onde trabalha, houve um aumento de 20% nos vôos.
— Quando o vento é de nordeste não tem como voar do Morro do Farol. Este ano, é um cliente atrás do outro. O vento que mais está ocorrendo é o leste, perfeito para o esporte — diz Márcio Mota da Silva, 37 anos.
A trégua do Nordestão — que no ano passado até instigou a moda das meninas usarem lenço na cabeça para conter as madeixas — tem feito a alegria dos veranistas.— São dias para ler jornal na beira da praia sem o estresse de conter as folhas — comentou o coordenador dos salva-vidas da Operação Golfinho, tenente-coronel Vinicius Clos Corrêa.
Ele lembra que a temperatura mais alta da água, marcada em 23°C ontem na Plataforma de Tramandaí, deve-se às correntes marítimas chamadas de brasileiras, caracteristicamente mais quentes.
O comandante dos salva-vidas de Nova Tramandaí até o limite com Xangri-lá, major Roberto do Canto Wilkoszynski, tem 47 anos e surfa desde os 14 anos. Sabe tudo de beira da praia e conhece cada movimento do vento. Ele conta que está abismado com o que tem percebido:
— Estamos há mais de uma semana apenas com a presença do vento leste. Isso não é comum.
E o vento leste ajuda também em outros quesitos. É ele quem está deixando a água mais limpa e quentinha, comenta o major.
— Ele vem de dentro do mar para a terra, acaba trazendo a água mais clara para a beira. O Nordestão tem aquela característica de deixar o mar chocolatão.
Mas todo este cenário convidativo inspira cuidados, conforme denunciam as bandeiras amarelas. Apesar de cristalino e morno, muitos buracos e as chamadas correntes de retorno estão por toda a parte. Os salva-vidas pedem que os banhistas tenham atenção também às bandeiras vermelhas fixadas no chão. Elas indicam que aquela área tem muito repuxo e requer atenção triplicada.
A tendência é de que o cenário se mantenha até o final do mês, já que uma massa de ar seco está estacionada à leste do Estado. A trégua no Nordestão se deve, em partes, também a um período de neutralidade climática, onde nem El Niño nem La Niña se apresentam — coisa que não ocorria desde 2004.
Saiba mais
O Nordestão é geralmente forte e persistente, típico no Rio Grande do Sul por causa da posição do Estado em relação ao globo terrestre e ao Atlântico.
Frentes frias passam pelo mar, não atingem diretamente a costa, mas intensificam o vento que vem do mar em direção à terra. É o tal vento nordeste.
Ele deixa o mar mais agitado e escuro, já que ele começa a se movimentar na direção do vento. Como este vento (normalmente acima de 40 km/h) é forte, remove o fundo do oceano.
Neste ano, como não tem a presença dos fenômenos El Niño e La Niña, estamos em um período de neutralidade climática, o que não ocorre desde 2004. Assim, o vento característico vem se apresentando em menor frequência que em anos anteriores.
Outra explicação para o que está ocorrendo nesta semana tem a ver com uma massa de ar seco estacionada sobre grande parte do Rio Grande do Sul, que joga para a costa o vento leste predominantemente. A tendência é de que esta condição permaneça até o final do mês, impedindo chuva na região. Pode haver apenas pancadas rápidas, sem alterar a boa condição do tempo.
Fonte: Somar Meteorologia
COMO O VERANISTA GOSTA
Bola de plástico gigante para andar na água é sensação em Torres
Foto: Ricardo Duarte
Por onde se andasse no Litoral Norte ontem, a visão era a mesma: areias lotadas e muita gente dentro do mar. Cada um achava a diversão que mais se afeiçoava.
Luiza Uchoa Westphalen flertava com uma bola de plástico gigante, daquelas em que é possível entrar e navegar nas ondas.
— Acho que eu vou ter medo — dizia a menina de três anos, cheia de caras e bocas para a câmera fotográfica da mãe Karen, 37 anos.
— Já disse para o meu marido. Até o final da temporada eu vou andar neste brinquedo — exclamou a mãe.
O argentino Gabriel Rueda, 38 anos, veio de Córdoba para fazer sucesso na orla de Torres com a novidade que chama de Globo Nuclear no mar gaúcho. Era ele quem oferecia a diversão ontem a R$ 15 por 10 minutos.









