Quentinho, sem água-viva, de águas mais para cristalinas do que para chocolate e ondas calmas quase todos os dias desde o início de janeiro. Este é o mar que tem servido de deleite aos veranistas no Litoral Norte.
De acordo com a Estação Hidrometeorológica de Imbé, a temperatura da água chegou hoje a 26,8°C (o normal é 24°C), enquanto a atmosférica era de 27,1°C. E tem se mantido assim nas últimas semanas. Parte da explicação está relacionada com a baixa frequência de frentes frias no Estado. Segundo o professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) Paulo Calil, esses fenômenos trazem ventos fortes capazes de misturar o mar, trazendo as águas mais frias do fundo do oceano para a superfície e também por remover os sedimentos do solo.
— Com pouca intensidade de vento, há mais tempo para que a água do mar receba a irradiação solar, aquecendo mais a coluna superior da água, aproximando as duas temperaturas — completa Calil.
Condições quase tão boas para banho como há 10 anos. Em 2003, Zero Hora flagrou o banho de mar de uma estudante de Porto Alegre que veraneava em Arroio Teixeira. Naquele dia, em 15 de fevereiro, as ondas do balneário eram as mais claras de toda a extensão gaúcha. Dez anos depois, apesar de não ser tão claro, nem tão lagoa como naquela época, o mar de Shenia Milano é um dos melhores mares para banho dos últimos tempos.
Com 27 anos de experiência como salva-vidas, o sargento Wilson Roberto Yansen Müller, da guarita 75 de Capão da Canoa — a campeã no número de salvamentos, conta que este é um ano atípico. Não lembra de ter presenciado um verão com vento tão inconstantes, que mudam o comportamento do mar o tempo inteiro e ao mesmo tempo tão convidativo.
— Isso torna o nosso trabalho mais intenso porque o mar fica bem mais traiçoeiro. Como passou dias muito quentinho e aparentemente calmo, muita gente entra no mar e não se dá conta de que o vento oscila o comportamento das ondas tão depressa — afirma o sargento.
E lá se vão 971 resgates até agora na Operação Golfinho — 44,5% a mais do que no mesmo período do ano passado. É o típico "bonitinho, mas ordinário", brinca o capitão Isandré Antunes, comandante das guaritas de Capão da Canoa. Ele lembra que esta situação tem muito a ver com a ausência do vento Nordestão, o que implica em dois fatores: o primeiro é que, sem tanta ventania, as pessoas permanecem mais tempo na beira da praia, ampliando o tempo de exposição aos riscos, e o segundo é que o vento típico do Rio Grande do Sul, apesar de escurecer a água, tapa os buracos, responsáveis pelos danos.
— Temos tido muito vento leste, que engana a superfície, deixando-a bonita, porém perigosa pelo repuxo. Também fica mais difícil para o banhista ouvir o apito do salva-vidas, pois o leste é um vento que vem do mar, abafando o barulho do instrumento de sinalização quando alguém está sob risco — detalha o capitão.
Destaque ZH
Quem é a Shenia?
Dez anos se passaram desde que o fotógrafo Ricardo Duarte flagrou o banho de mar da adolescente Shenia Guske Milano, em Arroio Teixeira. A equipe de ZH localizou a hoje mulher de 26 anos, e a convidou a testar o mar desta temporada no mesmo ponto da praia, que aliás, é frequentado por ela desde que nasceu.
Naquela época, o menina estava no Ensino Médio e passava os três meses na praia, no apartamento da avó. Com o passar dos anos, os dias de veraneio foram escasseando devido aos compromissos acumulados. Aos 21 anos, entrou para uma agência de modelos e há três anos formou-se em Psicologia. Chegou a trabalhar em uma clínica de dependentes químicos em São Leopoldo, mas nos últimos tempos dedicou-se a estudar para concursos. Acaba de passar na primeira fase de uma seleção no Hospital de Clínicas e aguarda a prova de títulos para ter a resposta de trabalho na área tão sonhada.
Dona de 57 quilos distribuídos em 1m71cm, por ponde espalha três tatuagens, olhos verdes e um sorriso largo corrigido por um longo período de aparelhos ortodônticos, Shenia se esbaldou novamente nas ondas.
— A água está quentinha e bem gostosa. Dá aquele choque no início do corpo quente, mas depois que acostuma é uma maravilha — avaliou a moça.
A veranista aos 16 anos, em veraneio em Arroio Teixeira
Foto: Ricardo Duarte
ÁGUA CLARA E QUENTE
A baixa intensidade dos ventos é a responsável pelo mar cristalino e também mais quente.
Uma combinação entre dias contínuos de sol, pouco vento e baixa intensidade das frentes frias que passam pelo Estado aqueceram as águas.
O vento fraco, apesar de oscilar em várias direções, não tem capacidade de misturar muito a água, deixando os sedimentos quietos no fundo do oceano. Ele permite também que os raios de sol incidam por mais tempo em uma água mais "parada", gerando o aquecimento.
Junto às frentes frias vem o vento forte, capaz de provocar o frio no mar e a água turva. Neste janeiro, foram apenas quatro frentes frias. Para fevereiro, estão previstas duas.
Cinco dicas dos salva-vidas
> Quem não sabe nadar, a melhor alternativa é flutuar e entender para onde a corrente está levando. Uma dica é olhar para os prédios. Se você estiver indo para a direita da construção, é para este lado que deve tentar sair. O mesmo vale para a esquerda. A saída deve ser sempre na diagonal e nunca reto na direção da praia
> As atitudes acima garantem que você não se desgaste, perdendo fôlego rapidamente ao tentar nadar em vão
> Preste atenção na bandeira hasteada na guarita e também se há estacas afixadas na beira da praia. Elas podem sinalizar zonas de corrente de retorno, os repuxos
> Se você está com o pé no chão e está vendo que está sendo puxado para o fundo, não tente dar pulinhos para retornar, pois senão a água te leva. Manter os pés na areia ajuda a te dar estabilidade, e o ideal é que você retorne caminhando
> Não espere ficar apavorado para chamar ajuda. Não é vergonha sair com o auxílio de um salva-vidas









