Talvez lhe faltassem as palavras. Mas possivelmente o motivo da breve descrição era porque sabia que, em pouco tempo, um olhar deslumbrado se voltaria aos seus olhos, resumindo em um brilho a sensação mágica de encontrar, sem aviso prévio, um paraíso que nem placa tem. É por isso que desde a saída de Torres e durante todo o trajeto de 15 km até o Morro dos Macacos, em Passo de Torres, Santa Catarina, Jonas Brocca, 26 anos, havia dado apenas dois alertas. O primeiro era para tomar cuidado com os macacos:
Pedro de Rosa é dono da propriedade
Foto: LAURO ALVES
— São uns baitas safados. Se tu ratear, eles te levam no colo!
Como lenha na fogueira, a imaginação ia longe com os poucos detalhes revelados pelo biólogo enquanto o carro se deslocava pela estrada de chão batido. Ainda assim, a curiosidade queria saber mais sobre o senhor de 77 anos que guarda aquelas terras onde mora já a décima geração de uma família; o homem, que, em instantes, corria o risco de ser irresistivelmente chamado de "vô", dado o carisma no jeito de ver o mundo e se encantar com ele.
— O seu Pedro é o velhinho mais gente boa que tu vai conhecer nessa vida — sugeriu Jonas, concluindo, assim, uma cutucada feroz na vontade de chegar logo.
Não tem portão nem nada que avise a entrada. Naquela mata, as galinhas e os macacos recepcionam, com provas de liberdade, cada um que ali chega. Enquanto as aves, como funcionárias fazem a limpeza do quintal, recolhendo os restos de milho que se perdiam pela grama, os macacos-prego se puxavam naquilo em que são mestres: a malandragem.
Assanhado, um deles roubou a banana que Tatiana Hilario, 35 anos, trazia junto ao peito. Enquanto isso, maroto, o outro pendurado no alto da árvore fazia um belo de um xixi, meticulosamente mirando a desfeita na cabeça da brigadiana Ana Iracimar, 35 anos. E as galinhas lá, dessa vez, entretendo-se com uma rã, ainda viva, a pular de bico em bico.
— Só não segurem os animais, porque estes são livres — soava ainda distante uma voz nem um pouco cansada. Um arremate para aquela cena que acontecia com pouca interferência humana.
Macacos-prego são o tipo encontrado no local
Foto: LAURO ALVES
Mas se Pedro de Rosa achou necessário falar é porque sabe que, de um conselho desses, é sempre bom se lembrar. Para ele, as décadas vividas são poucas; as salas de aula nas quais nunca entrou são muitas e infinita é a certeza de que só a natureza ensina a viver.
Por isso, insiste em manter o local onde mora aberto à visitações que custam apenas R$ 2. Pelo mesmo motivo é que sobe o morro quantas vezes forem necessárias, em qualquer época do ano. O fôlego não lhe falta, e a paciência é uma virtude estampada em seu rosto, emoldurada por alinhados fios de cabelo branco.
— Eles não vêm perguntar quem é o dono ou quanto custa o que tomam da mão dos distraídos. Lá em casa, é só de janelas fechadas, senão levam o que podem. E aqui fora, só as rosas sobrevivem. É preciso se alimentar dos produtos da cidade, porque, com eles, plantações já não são mais possíveis — explica, com o respeito e a calma de quem entende e acha graça dos amigos primatas.
Na última quinzena, mais de 600 turistas vieram conhecer o sossego de Pedro. A maior parte deles foi guiada, em caminhadas que duram mais de uma hora e meia, pelas trilhas da área preservada. Ao lado, nunca à frente do grupo, a enciclopédia viva, sem saber, mostrava sua sabedoria. Um santo remédio.
A primeira pausa vem em tempo de enxergar de perto ruínas que travam desgastante batalha contra o tempo. No alto do morro, os anos corroeram e trouxeram um visão quase em sépia daquilo que já se foi. Resistentes como podem, os resquícios fazem com que todos os dias Pedro reconstrua, na memória, a casa em que nasceu.
É a moradia de cujas janelas mirava a Lagoa do Sombrio, que ainda banha a propriedade e, na tarde de ontem, fora local onde se refrescavam crianças, adultos, peixes de água doce e também os de salgada. Talvez tenham aprendido com Pedro que o que vale dessa vida é a saborosa convivência. Pois naquelas águas salobras, todos sempre se deram bem.
Ao final, depois de horas de passeio, um bem-estar invade o corpo trazendo com ele a certeza de que tudo faz sentido. Até mesmo o fato de Jonas não ter se esmerado muito nos detalhes daquele paraíso. O que tentou, agora, é claro: não dizer muito sobre aquilo que só pode ser sentido. Deixou que cada um se encantasse ao próprio modo com as histórias de seu Pedro, com o amor que tem por tudo que faz, com os macacos que defende como filhos, e com a lição que ele não fala, e sim transpira: o segredo da vida é reconhecer o valor dela.
Mas, ó, cuidado com os macacos.
SERVIÇO
> A propriedade fica a 20 km de Torres, em Passo de Torres (SC)
> Lá se encontram macacos-prego, ruínas históricas e a Lagoa do Sombrio, própria para banho
> Como não há placas indicando o caminho, a dica é que o turista vá até o centro de Passo de Torres e pergunte aos moradores onde fica o Morro dos Macacos
> Aberto durante todo o ano, das 10h às 18h. Ingresso a R$ 2













