Com humor de cidade grande, agitei os braços:
— Não dá. Ganhei o apoio quase instantâneo do vizinho do lado, o que está sempre de chapéu. Ele fez os mesmos gestos, mas não disse nada.
— Não, não, não dá mesmo — repeti, pilhado.
O morador da frente também pisou na ampla varanda. Ele gritou com a energia de cento e poucos quilos, costeado por parentes igualmente pesos-pesados.
— Baixa, baixa.
O do boné se aproximou. Éramos seis contra um.
Do outro lado da rua, o barulhento jovem, que uniu o sexteto improvável, fechou a porta lateral do carro. Deixou o porta-malas escancarado. O som saia intervalado, como rajadas curtas, cada respiro ocupado por uma batida curta: num, bum, dum, dum, bum, BUM. E aí, tum, tum, tum.
Camuflado atrás dos óculos escuros, o DJ dos infernos notava que a oposição crescia no entorno. Não ligava. Sua música (música?) seria a nossa também. Ele havia decidido que eu precisava, MUITO, ouvir aquele bate- estaca alienígena. A partir daquele sábado de verão, 18h13min, o som dele seria o meu também. Eu PRECISO gostar, eu OBRIGADO a gostar. O automóvel metido a trio elétrico ganhou vida própria, e o final de semana começou se transformar em segunda-feira de manhã. A beira de mar, que não é surda, reclamou do tsunami sonoro.
A ideia foi minha. Combinamos. A música estridente, nossa inimiga, só podia ser combatida com a mesma intensidade, volume e precisão. Agimos.
O gordo pegou seu carro, o boné estacionou a caminhonete perto do carro de som. Eu segui a dupla. Da 4 por 4 saiu algo como Milionário e José Rico, o outro acionou os Rolling Stones do século passado. Fui radical, volume máximo, eu chamei AC/DC. Formamos uma barreira sonora que a praia jamais esquecerá. Foram 10 minutos alucinantes, trepidantes, o sertanejo aliado ao rock pesado. Pioneiros, descobrimos a vacina. Mas só recomendo em casos extremos, com apoio da vizinhança e demais interessados.
Logo, o veranista sem noção pegou a loira de farmácia e foi dar uma longa volta. À noite, bem tarde, ouvi o cara se aproximar. Barulho, só o ronco do motor. Nem um só tum, um tumzinho.
No domingo, a cerveja desceu muito bem. O gordo me ofereceu uma. O boné, mais retraído, ficou perto da sua Ranger, verdadeiro sentinela. Assamos uma costela bem mais tarde, falamos de futebol, de mulheres e do tempo.
É fácil fazer novos amigos no litoral.












