Ela causou frisson na areia. Reuniu uma multidão ao redor do seu sofrimento e arrancou suspiros e palmas quando conseguiu voltar ao mar. Quando morreu, entristeceu centenas de pessoas e virou motivo de comoção nas redes sociais. Agora, mais de dois anos depois, a baleia jubarte que encalhou em um banco de areia de Capão Novo, no Litoral Norte, vem despertando novas emoções.
Seu esqueleto está pendurado por cabos, sustentados por tubos de alumínios e conectado por uma mistura de polímeros e resina, com o resultado de concreto quando endurece. Para a alegria da gurizada, desde a última sexta-feira fica exposto no Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), em Imbé. Desde então, dezenas de famílias percorrem os seus 12,7 metros de comprimento. Querem ver que fim levou o famoso cetáceo.
Muitos dos que foram ao encontro do animal eram tão pequenos que não chegam a lembrar de tê-lo visto em agosto de 2010. Cristopher Kotz Mariath, cinco anos, é um caso. Ele estava com os avós na praia do Barco, onde veraneiam, e acompanhou de perto as emoções do megarresgate. Estava eufórico com a ideia de ver o bicho, mas pouco lembrava da cena vivida no passado.
— Como vocês trouxeram ela pra cá? — interrogava Cristopher.
— De caminhão — respondeu a monitora do museu.
O menino saiu boquiaberto com a resposta e percorria curioso cada centímetro da jubarte.
— Eu fui na beira da praia, mas não lembro dela. Olhando agora, parece muito legal — exclamou Cristopher.
O avô dele, Jerson Mariath, 56 anos, lembra bem do desencalhe.
— Ficávamos curiosos acompanhando todo o processo de retirada e é muito bacana agora ver como ela é por dentro, de perto — comemorou.
Já Mateus Thiesen, oito anos, apesar de faceiro com a inspeção minuciosa que fez à baleia, estava consternado:
— Mas eu aprendi que ela é uma baleia que estava no mar, coitada, já estava mal de vida. Aí, eles chegaram, tentaram ajudar, se esforçaram e infelizmente ela morreu. Eu achei muito legal esta exposição, porque eu consegui ver os ossos dela.
Outros desavisados sentenciavam: "olha o tamanho do tubarão" ou "o que um dinossauro está fazendo aqui?".
Em VÍDEO, veja imagens da baleia jubarte encalhada em agosto de 2010 e do trabalho feito com a ossada:
Para causar reações diversas, uma equipe do Ceclimar trabalhou dia e noite. Maurício Tavares, biólogo da instituição, conta que esta é uma técnica usada em museus dos Estados Unidos para animais grandes.
— Tivemos sucesso neste processo devido à agilidade na preparação dos ossos. Se a gente tivesse esperado um tempo maior, a gordura teria impregnado e não estaríamos com o esqueleto pronto — explica o biólogo, reforçando se tratar do primeiro esqueleto de baleia jubarte do Estado.
RELEMBRE O CASO
> Em 21 de agosto de 2010, a baleia jubarte encalhou em um banco de areia entre Arroio Teixeira e Capão Novo, no Litoral Norte.
> No dia seguinte, um domingo, biólogos do Ceclimar são avisados e vão até o local e desconfiam de que ela está doente, já que esta espécie não é acostumada a chegar tão perto da costa.
> Na segunda, discutem a melhor forma de ajudá-la a voltar para o fundo do mar.
> Na terça-feira, uma megaoperação de resgate é preparada, contando com a ajuda da Petrobras, de mergulhadores e da Brigada Militar, além de equipamentos e embarcações de salvamento. Tudo foi acompanhado por dezenas de curiosos, e o passo a passo foi transmitido também por zerohora.com, em tempo real, e causou comoção nas redes sociais. No meio da tarde, o animal foi retirado do banco de areia, a 80 metros de uma multidão que vibrava e aplaudia. Mais de 30 profissionais estavam envolvidos no resgate.
> Na quarta-feira, 25 de agosto, o animal é visto no início da manhã encalhado nas proximidades do local onde ficara preso da primeira vez. Apesar de cinco dias de esforço, no final da tarde de quinta-feira, ela morre.
> No dia seguinte, 26 de agosto, o corpo do cetáceo foi levado para a beira da praia, onde foi realizada uma necropsia.
> E os dois dias que se seguiram foram de retirada do esqueleto do animal e transporte até o Ceclimar, em Imbé.
SERVIÇO
> O Ceclimar abriga animais de diversas espécies. No museu, criado em 1986, existem animais empalhados, como lobos e aves marinhos, esqueletos de vertebrados marinhos e conchas, além de peixes de água doce e salgada. Animais vivos também podem ser vistos no Centro de Reabilitação. Atualmente, são tratados lá pinguim, leão-marinho e atobá marrom (uma ave)
Horário de visita
> Museu: de terça a domingo, das 15h às 19h, às quintas-feiras, também das 20h às 22h30min. Centro de reabilitação de animais marinhos: de sexta a domingo, das 16h às 18h.
Ingresso: R$ 3. Crianças até seis anos e idosos acima de 60 anos não pagam.
Local: Avenida Tramandaí, 976, em Imbé.
Contatos: (51) 3627-1309 e www.ufrgs.br/ceclimar









