Como algo que ainda prende as mulheres aos pertences que carregam durante um ano inteiro — mas que permite também, em clima de férias, uma saudável desorganização por meio da falta de divisórias — as bolsas de praia se tornam verdadeiros redutos de descobrimento. Trazem dentro de si pistas da personalidade de suas donas, os traços de cada uma que não poderiam ser esquecidos em casa, ainda que na de praia.
PREPARADA PARA O MUNDO
Cada pegada cravada na areia é uma certeza. Ela desfila na praia a passos firmes, como quem carrega junto a si a segurança de uma casa, o conforto de um lar. O noivo de Fernanda Schneider, 22 anos, poderia até não estar nessa típica cena de verão. Ainda assim, o banho de sol da estudante seria um momento de coragem. A sensação de que está preparada para o mundo lhe acompanha debaixo dos braços, dentro de uma bolsa.
— Nem que venham dentro de uma sacolinha de súper — enfatiza Fernanda, com a voz grave de quem confere importância ao que fala.
Só que elas carregam muito mais do que protetores, bronzeadores, cangas, celulares e trocados para a água de coco. Assim como Nina Godinho, 28 anos, e as amigas com quem curte o verão em Atlântida, trazem o livro no qual estão imersas, a câmera Lomo que registra as escolhas de um dia em que tudo pode ser feito, a vaidade resumida em batons, cremes para o cabelo e outras coisas que carregam mulheres prevenidas — aqui não especificadas, como segredinhos femininos que são.
IGUAL A CORAÇÃO DE MÃE
O infinito espaço de bolsa de mãe
Foto: LAURO ALVES
Para a grande maioria, ir sem bolsa para a praia é como veranear sem biquíni. E quando, a mulher já é mãe, é como se, além da própria, presenciasse também a nudez dos filhos. Criança não carrega sacolas. Então sobra para Ana Carla Chaves, 36 anos, uma mistura cruel, quase improvável, mas que com frequência acontece: a areia já incorporada aos brinquedos se mistura ao palitinho de picolé, une-se à gota pastosa de protetor que caiu sem querer e lambuza o que puder lá no infinito interior de sua bolsa. Imensurável, uma vez que de mãe.
— São duas meninas e mais o meu afilhado. Me faltaria mão para trazer tanta bugiganga para a praia — imagina a enfermeira, mirando o esparramo de baldinhos, pás e bonecas pela areia.
ELES FICAM COM O PESO
Marido e filho ajudam a carregar os apetrechos
Foto: LAURO ALVES
Dinah Rocha, 49 anos, já tem filho criado. Ela sabe que Rafael, depois de três décadas vividas, não sairá correndo para o mar. Presume que não precisará mais pular ondinhas com ele ou despender toda a atenção na construção de um castelo de areia. Não, isso é tempo antigo. Agora o guri está crescido e é hora de levar algumas long neck de cerveja para curtir o calor.
Na família de Dinah ninguém bebe. Nem o filho, nem o marido. Por sorte arranjou uma nora também chegada no refresco. E quando as duas passam a temporada juntas na praia, os homens da casa já sabem quem vai ter de carregar a bolsa branca de bolinhas, aquela especialmente gelada. E também a outra mochila mais discreta, em que, de todos os objetos, apenas o pente seria deles.
— Eu e minha nora usamos esta escova de cabelo e os homens ficam com este pente — explica Dinah, com os objetos em mão.
Eis que a tentativa de justificar a necessidade de dois artefatos minimamente diferentes em uma bolsa já apertada é interrompida. O marido, Ivo Rocha, 53 anos, sem falar nada, entrega a mulher: debaixo do boné, apanhado da cabeça num gesto quase sacana, não havia cabelos. Ahááá! Os costa-largas, além do peso das sacolas, carregam ainda as desculpas esfarrapadas das esposas.








