Ele era um gordo e estava de bermuda na praia. Cada perna da bermuda daria uma saia de fogão. Em volta do gordo, uma turma de amigos magros e ruidosos. Todos bebiam cerveja. Um deles, latinha na mão, era um sujeito atlético, de bermuda xadrez e tatuagem nas espáduas, clássico frequentador de academia. Esse cara se mantinha de pé, enquanto o gordo se acomodava com certa dificuldade numa valente cadeira de alumínio.
— Mas, gordo, tu é bem gordo, né, gordo? — dizia o Apolo do litoral sul, olhando para o gordo. — Tu é muito gordo, ô, gordo! Um porco. Um elefante. Olha só pra ti: tua cara é gorda, teu pescoço é gordo, tua mão é gorda e até o teu pé é gordo. Nunca tinha visto um pé gordo, mas o teu pé é balofo, o único pé gordo da história dos pés de todo o mundo!
Ele dizia aquilo tudo quase gritando, para toda a praia ouvir. Lembrei de um gordo da minha aula, no primeiro grau. Era um gordo grande. Um dia, na saída da escola, dois magrinhos ficaram gozando dele, mais ou menos como o cara da academia fazia com o gordo da praia. O gordo lá da aula se sentou no topo de um morrinho que havia atrás do colégio. Abraçou os joelhos, meteu entre eles a cabeça e ficou ouvindo os dois magrinhos a ofendê-lo:
— Baleia! Gordo marica! Gorda bichona.
Juntou uma turma em volta. Eu junto, olhando, esperando para ver o que ocorreria. Os dois seguiam insultando-o e ele não reagia. Era angustiante.
— E aí, gordona — disse um. — Não vai fazer nada? Tá com medo?
— Somos dois — riu o outro magrinho. — Ele tem medo de dois.
Então, o gordo se levantou e, levantando-se, rugiu:
— Nem de dois, nem de três!
E saiu distribuindo cacetada nos magrinhos. Deu meia dúzia de manotaços e pataços, jogou-os ao chão, fez com que parecessem o Recruta Zero depois de apanhar do Sargento Tainha. Encerrou a briga em dois minutos. Aplaudimos o gordo, mas ele não ficou feliz. Foi-se embora sozinho, chateado, ignorando a nossa admiração. Por essa atitude, mais ainda o admirei.
E agora, na praia, esperava que esse novo gordo fizesse algo parecido. Que se erguesse da cadeirinha e transformasse a cara do Apolo num xisburguer com bacon. Mas, não, ele continuava sentado, enquanto o outro prosseguia:
— Pé gordo, onde já se viu? E, além de tudo, tu é branquicela. Uma baleia branca! Como tu pode ser tão gordo, ô, gordo! Gordo, gordo, gordo, gordo!
Quando a coisa estava se tornando insuportável, ele finalmente se mexeu. Fez menção de se levantar. Dei um passo para trás, em expectativa. O gordo se apoiou nos braços da cadeirinha e pôs-se de pé, imenso, assustador. O outro calou. O gordo estendeu o braço enorme, do tamanho da minha coxa. A praia silenciou. E ele gritou:
— Ei, picolezeiro!
Todos olhamos para onde ele olhava. Um vendedor de picolé parou e ficou esperando.
— Tem Chicabom? — perguntou o gordo. O vendedor disse que sim. — Dá dois! — pediu o gordo.
E descascou os dois picolés e levou-os, ambos e ao mesmo tempo, à bocarra devoradora de comida, e todos ficaram perplexos, enquanto ele suspirava, sorridente:
— É bom ser gordo!
As pessoas, a areia, o oceano ria. Acho que o Apolo da praia ficou pior do que os magrinhos do colégio.












