Já estive em Binsberg, num desvão da Alemanha, e era uma amena manhã de sábado e vi as louras criancinhas alemãs correndo livres pela rua e seus pais fazendo compras numa feira com cestos de vime pendurados nos braços. Vi como eles riam e conversavam com leveza e sentavam-se sob quiosques para tomar chope e trinchar salsichas e pensei: essa é a vida como tem de ser vivida.
Estava errado.
A vida como tem de ser vivida é a vida praiana. Veja como as pessoas migram para as fímbrias do mar rumorejante no verão. Por quê? Não é para se refrescar. É porque elas sentem que é ali que a vida acontece como deveria acontecer: pessoas com pouca roupa, rindo, se divertindo, comendo, bebendo, exercendo sua humanidade. É como sempre deveria ser.
Verdade que já enfrentei vicissitudes na orla. Em primeiro lugar, porque sou branquicela. Uma vez, imagine, uma namorada passou Óleo Johnson em mim. Diz ela que achava que Óleo Johnson protegeria a minha pele sensível. Será que era verdade? Ou será que eu havia feito algo a ela e ela queria vingança cruenta? O fato é que minha namorada me fritou. Até hoje guardo marcas daquele relacionamento.
Outra vez, fiz o maior fiasco lá na Praia do Rincão, balneário de Criciúma. Era sábado, e um vereador da cidade me convidou para almoçar na casa dele, na praia. Bem, eu estava com meus amigos desde a sexta à noite, nós confraternizando e talicoisa e continuamos a confraternização manhã afora, na areia, sem dormir, nos sustentando com pastel de camarão e cerveja. Levei-os, todos, para o almoço. O vereador se assustou um pouco com a quantidade de novos convidados, mas absorveu bem o golpe, disse que a casa era nossa e tudo mais. Ocorre que ele começou a conversar comigo sobre política e eu já estava cansado e ele falava e falava e falava e eu me desconcentrei e... dormi. Dormi em meio à conversa com nosso gentil anfitrião, ele falando, eu roncando. Ele absorveu bem o golpe, mais uma vez. Mas eu não. Eu, até hoje, sofro com a gozação dos amigos que testemunharam a cena lamentável.
E, antes disso tudo, quando era guri, nós íamos para a praia de carona. Ficávamos, distribuídos em parelhas de amigos, mochila nas costas, com o dedão estendido na freeway. Logo chegávamos a Tramandaí, uns 20 ao todo. Isso na ida. Na volta, ninguém dava carona. Qual era o problema da volta? Nunca entendi, mas o fato é que não nos davam carona. Ficávamos HORAS na saída da cidade, os polegares apontando para a longínqua Porto Alegre, uma tristeza.
Num desses domingos, era noite já, e quem parou para nos ajudar, a mim e ao meu amigo Chico Trago, foi um cara que dirigia um DKW. Sentei na frente e o Chico atrás. Ao lado do Chico havia um monte de panelas e espetos e outras tralhas estranhas, inclusive um papagaio numa gaiola. O motorista era vendedor de churrasquinho na praia, e estava levando seu material de trabalho para Porto Alegre. Tinha um buraco no chão do DKW bem no lugar em que ficava o meu pé. Subia um ar quente do asfalto da estrada e me queimava, eu tentava tirar o pé dali, mas não havia como me acomodar. O DKW ia a 50 por hora, todos os carros nos ultrapassavam, até uma bicicleta nos ultrapassou. Quando chegamos à altura de Gravataí, o vendedor de churrasquinho parou "para esfriar um pouco o motor". Deu umas pancadinhas com o pé nos pneus, mirou o horizonte e vaticinou:
— Aí vem chuva. Vamos dar uma paulada para ver se chegamos logo a Porto Alegre.
Me animei. Enfim passaríamos dos 50 por hora. Passamos mesmo. Fomos a 60. Nunca o trajeto Tramandaí-Porto Alegre demorou tanto.
Vicissitudes. Mas, ainda assim, acredite, a vida praiana é a vida ideal a ser vivida.








