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Carinho canino25/01/2013 | 06h03

A história do cão que acompanha três salva-vidas até o trabalho em Imbé

Cachorro e militares da Operação Golfinho se tornaram companheiros de temporada

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A história do cão que acompanha três salva-vidas até o trabalho em Imbé Ricardo Duarte/Agencia RBS
Preto leva o sargento Juares Matias ao trabalho na guarita 136, na orla de Imbé Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS

Preto já está velho. Tem o olhar cabisbaixo, o andar arrastado. Dos dentes caninos, restou-lhe apenas um. Com seu lombo comprido e gordo, vagou por um tempo na ruas de Imbé, no Litoral Norte, depois que o dono fechou o comércio e foi embora.

Assim que os olhos verdes de Claudete Santos Mendes, 59 anos, avistaram a amargura do cão, recolheu-o para sua casa. Lá se vão quatro verões. O cachorro não tem raça definida, embora pareça muito com labrador. Toda a sua determinação, no entanto, está na forma como escolhe o seu dono. Dizem que cachorro elege apenas um para chamar de seu. Com Preto não foi assim. Tem adoração pela mulher que lhe deu um teto, mas escolheu se doar a três militares: os soldados Gustavo Cabeleira, 24 anos, e Ricardo Simas da Silveira, 34 anos, e o sargento Juares Matias, 45 anos.

Além de serem salva-vidas, os três guardam em comum um imenso amor pelos pets. Habituados a se hospedarem na casa de Claudete, os profissionais costumam dizer que não foram eles que escolheram Preto, mas, sim, o contrário.

É que desde a adoção, o bicho tira serviço na Operação Golfinho. Sai de casa minutos antes das 8h30min e só volta a descansar no final da tarde, quando o trio para de zelar pela diversão dos banhistas.

Mas nem sempre Preto vai sozinho. Tem Branca como companheira, uma cadela sapeca que se contorce por um carinho na barriga.

A rotina durante a temporada é seguida à risca e nem o mau tempo é capaz de deixar o cachorro em casa. Preto já calcula o horário que os amigos saem. Antes que despontem na porta, monta guarda no portão. Com andar cansado, acompanha o grupo por duas quadras até a guarita 136 na beira-mar. Só não balança o rabo porque não o tem.



Para os salva-vidas, que deixam as famílias para servir ao veraneio, a presença do Preto é uma benção:

— Cada latido é como se fosse um sorriso que a gente recebe — complementa o sargento.

Na casa de Claudete, vivem quatro cachorros com todas as mordomias possíveis. Assistem à TV com ela e com os salva-vidas na sala, têm ração à vontade e dormem em uma caminha confortável. Isso quando não decidem pular para a cama dos seus melhores amigos. Preto foi o primeiro a entrar na rotina militar.

Apesar de observar as técnicas dos experientes protetores dos turistas, Preto nunca invadiu as ondas para ajudar no salvamento. Contribui apenas em melhorar o astral dos guardiões.

Quando é verão, Preto é só felicidade. Dificilmente os três tiram serviço ao mesmo tempo. Acontece muito de um deles retornar para a cidade onde moram ou cada um dos amigos estarem em turnos inversos, como nesta semana, mas sempre tem um por perto. É só quando se encerra a Golfinho que o olhar já murcho de Preto mingua ainda mais.

— O Preto fica triste, agitado. Corre para baixo da guarita e se esconde lá. Já teve dias que tive de ir levar água para ele. Dá dó — lamenta Claudete.

O vazio só é preenchido a cada novembro, quando os amigos retornam e a faceirice de Preto também.

Amizade já deu o que falar

Como os ocupantes da casinha também são responsáveis por cuidar da Barra do Rio Tramandaí, assim que chega à praia, o cachorro caminha pelo calçadão acompanhando um dos três até as pedras — prudência adotada pelos salva-vidas, para evitar burburinho dos usuários. O cão fica ali brincando e recebe afagos. Daqui a pouco se some. Na hora da rendição dos turnos, no intervalo do meio-dia, reaparece na guarita para levar o pessoal da manhã embora. Refresca-se e se alimenta na casa da Claudete e na hora do segundo grupo ir trabalhar, pouco antes das 13h, retoma o caminho do portão.

— Pode ser que a farda, colorida, chame a atenção e ele queira andar perto da gente. Mas desconfio mesmo que seja pelo amor e carinho que damos para ele. Agora, o engraçado é como ele conhece os nossos horários — diz o sargento Matias.

Tamanho amor é levado ao extremo. Por causa da antiga polêmica de proibir a permanência de animais na beira da praia, alguns dos homens do mar já arrumaram briga nas redondezas. Um quiosqueiro, certa feita, jogou um rojão para espantar o bicho. Foram tirar satisfação. Encontraram uma forma amigável de resolver o problema.

— É claro que a gente sabe que não pode trazer bicho para a beira. Nós não o trazemos. Ele é como tantos outros cachorros de rua que ficam soltos aqui durante todo o inverno e ninguém faz nada. Agora, quando chega o verão, vamos prender todos? Não tem como — adverte o soldado Gustavo.

Os rapazes até que tentaram conter o bicho no pátio de Claudete. Com frequência, engambelam Preto e Branca e fecham o portão sem que eles saiam. Os danados ficam de prontidão esperando os primeiros distraídos saírem de casa e tomam novamente o rumo da praia.

— Nunca imaginei que encontraria uma amizade assim — diz o sargento Matias, enquanto caminha ao lado de Preto para iniciar a sua tarde na orla.

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