— Oôôoô, o jogo já começou!
Pendurado na pequena trave, gritava o goleiro. Ansioso, ignorava o fato de a bola ainda estar nas mãos de um dos jogadores que se reuniam no centro do campo de areia. Para ele, a partida estava rolando, com ou sem bola, desde que saiu de casa.
A pressa é de quem pode até não ter ideia dos números que o relógio marca, mas já conhece a sensação de que o tempo passa rápido quando a missão é prazerosa: tá tudo claro e, de repente, noite. E aí não tem choro. É hora de a gurizada que se encontra todos os finais de tarde, sem falha, no campinho da Praça do Farol, em Capão da Canoa, se recolher.
Levando em conta a vontade que faz com que passem os dias esperando por este momento, fica fácil compreender por que, ali, as partidas acabam quando um dos times faz dois gols ou, então, se a disputa fica acirrada e a bola não dá nem sinal de tocar a rede, um dos tantos reservas toma a autoridade de um juiz.
— Agora chega, tem um monte de menino aqui fora querendo jogar! Vai pros pênaltis! — brada Guilherme Lima, 11 anos, como uma ordem a ser acatada sem cerimônias.
E ninguém fica de bico amarrado. As regras reinventadas funcionam tão bem que não precisam ser questionadas. A lógica é esperta e contempla um desejo mútuo: vão se passar 10 minutos e os de fora, como Henrique Schenato, sete anos, estarão em campo mais uma vez.
É simples, da mesma maneira, a forma como se reconhecem e se respeitam, ainda que nunca tenham se visto. O gringo mora na Serra, o de sotaque carregado vem da Fronteira, o tímido é da Capital e o que fala sem parar vem de Fortaleza. Mas eles não se preocupam com essas questões que adultos insistem em desvendar. Nesse campo, as diferenças se resumem mais ou menos desse jeito: tem o alemão, porque no auge de seus cinco anos o cabelo é quase branco; o pequeno, porque a altura não ajuda; e o gremista e o colorado porque as a camisas deixam bem claro.
E está formado o mais amistoso dos "nós contra eles". Antes do início do jogo, basta uma olhada rápida para decorar a quem a bola deve ser passada. E parece estar tudo de acordo. Pelo menos até que alguém se dê conta de que um dos times conta com mais jogadores do que o outro.
Enquanto isso, como quem assiste a uma lição básica, esquecida na medida em que as responsabilidades e os problemas crescem, pais e outros veranistas se atentam à tanta vida presente naquela partida. Dos bancos da praça, entre um mate e outro, deparam com uma oportunidade que vem em época boa.
Os que acompanharam aquela bola rolar certamente acrescentarão novas resoluções ao abraçar 2013, logo mais. E a maior delas, talvez seja a mais simples de todas: tocar a vida como uma partida de muito suor, na qual nem todas as regras precisam ser seguidas e em que a certeza é apenas uma. A de que, quando menos se espera, é possível ser brindado com um gol.













