Juliana Pacheco, o nominho dela. Ju. Mas meu amigo não ia registrar nome de mulher na agenda do celular, não... podia dar problema com sua ilustríssima, que era o que de pior pode ser uma ilustríssima: braba. Escreveu, sorrindo com a ideia ardilosa: "Pacheco". Aí, pensou um pouco mais. Sua mulher, se resolvesse atacar à traição e vasculhar-lhe o celular, podia desconfiar de alguém identificado apenas pelo sobrenome. É... Ela era bem capaz de deduzir que aquele sobrenome estava acoplado a um nome de mulher. Então, meu amigo resolveu deixar claro que aquele era um nome de homem. Colocou na agenda: "Pachecão". Nenhuma mulher poderia se chamar Pachecão.
Ficou tranquilo.
Acontece que, antes de as coisas darem errado, deram muito certo. Meu amigo envolveu-se com Ju e engatou um caso trepidante com ela. Trocavam mensagens quentes, sobretudo quando passavam algum tempo sem se ver. Foi num desses períodos, no feriado de Réveillon, que ela enviou um torpedo que foi interceptado pela mulher do meu amigo. Estavam todos na praia, ele, a mulher, os três filhos, a empregada e a sogra. No dia 1º, enquanto ele dormia um sono restaurador, um sono de recuperação da noitada de brindes sem fim e pulinhos nas ondas, ela pegou o celular, foi à caixa de mensagens e leu o seguinte:
"Tua boca me enlouquece. Um beijo nela.
Pachecão".
Sentiu uma vertigem. Deixou o celular cair. Teve de sentar-se para não cair também. Começou a suar. Pachecão... Pachecão! Por isso que ele andava estranho ultimamente. Pachecão! Mas como é que ele podia... Nesse momento, meu amigo veio do quarto, espreguiçando-se, satisfeito com as horas bem dormidas. Ela rapidamente escondeu o celular no bolso da bermuda e se recompôs. Ele se aproximou, sorrindo:
— Feliz ano novo!
E pespegou-lhe uma bicotinha nos lábios. Ela ficou imaginando o que aquela boca que a beijara fazia para enlouquecer o Pachecão. Sentiu-se enojada. Correu para o banheiro para vomitar. Meu amigo foi atrás:
— O que houve???
— Foi aquela lentilha de ontem. A costelinha defumada... — disfarçou ela, enquanto lavava a boca com fúria.
A primeira vontade que ela teve foi de esbofeteá-lo, mas se conteve. Refletiu. Passou o dia refletindo. No fim da tarde, convidou meu amigo para um passeio pela praia, "para ter uma conversa séria". Ele foi, achando tudo muito estranho. Acharia a conversa mais estranha ainda.
— Sabe... — ela começou. — De alguma forma, eu sempre suspeitei...
Ele arregalou os olhos. Ia falar, mas ela interrompeu, a mão erguida como um guarda de trãnsito:
— Me deixa falar! Pensei muito no que dizer e tenho que falar tudo, sem interrupção. Como disse, eu meio que sabia. Esse seu gosto por perfumes... Isso de estar sempre fazendo musculação... Sua preocupação com a barriga... O clareamento dentário...
— O que é que você?...
— Me deixa falar!!! Tenho que continuar. Acontece que eu sei de tudo.
— De tudo?...
— O Pa... O Pacheco... O Pachecão...
— Ahn? O Pacheco?...
— Não me interrompe! Olha, eu não sou uma mulher conservadora. Eu fui no Cio da Terra, lembra? Eu passava os carnavais em Laguna. Eu fumava aqueles troços, antes de nos casarmos. Posso entender que, em certo momento da vida, uma pessoa queira viver aventuras.
— Mas...
— Para! Eu entendo que você tem quase sessenta e que está se achando velho. Que está se achando no fim. E que decidiu experimentar coisas que queria ter experimentado antes, mas que não se permitia. Eu mesma penso algo parecido, às vezes... Eu não sou uma careta, entende? Tenho três filhos, tenho responsabilidades, mas não sou uma careta. Lembro bem do Super-Homem do Gil, lembro do Pepeu dizendo que ser um homem feminino não fere o lado masculino. E, além disso, você é um bom pai e um bom marido, tenho que reconhecer...
— Ah...
— Pensei muito nisso. E concluí que não é tão ruim. Se fosse uma mulher, confesso, se fosse uma mulher, eu não suportaria. Mas isso... O Pachec... Pachecão... isso eu compreendo. Essa necessidade de loucuras. De novidades.
Meu amigo ia protestar, mas, quando ela disse que não suportaria outra mulher, calou-se.
— Nós temos uma família — prosseguiu ela. — Temos uma vida juntos. Filhos. Uma boa casa. Essa casa na praia. Nossos amigos em comum. Nós construímos uma vida. Não vamos pôr tudo isso fora por causa de uma loucura de um homem na terceira idade.
— É que...
— Não quero que você fale nada. Não vou falar mais nada também. Nunca mais vou tocar neste assunto outra vez, desde que você não toque. Só quero respeito. Só isso. Espero que essa sua fase passe logo. Vamos viver nossa vida, certo? Não vou ficar vigiando você, mas quero respeito. Respeito, entende?
— Eu...
— Certo???
— Certo...
Já estavam chegando à casa de novo. Os filhos brincavam no pátio. A sogra havia preparado o mate. Meu amigo abriu o portão e entrou na casa sem saber o que dizer. Já faz um ano isso. E ele ainda não descobriu o que dizer.







