Foi-se a época de tolerância à combinação álcool e volante. Agora é assim: bebeu, a punição é certa.
É nesse clima que os agentes de trânsito trabalham desde que a Lei Seca foi endurecida ainda mais, na semana passada. Na nova era da caça aos maus motorista, em que qualquer teor de álcool é passível de multa pesada, nada melhor do que o Carnaval — o mais festivo dos feriados — para testar se o brasileiro assimilou de vez as recentes e rígidas regras.
Não importa se você comeu um bombom de licor, tomou remédios homeopáticos ou fez gargarejo com enxaguatório bucal. Ao cair na barreira, imediatamente após o consumo desses produtos, o condutor não passará impune ao bafômetro. Trata-se de um golpe — ou quem sabe, um alerta — entre aqueles que ainda se agarravam à ideia de que dois chopes passariam em branco no bafômetro.
Para dirimir tais dúvidas, ZH convidou um grupo de alunos do Centro de Formação de Condutores (CFC) Porto Alegre, da Capital, para realizar um teste na sede da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Acostumados com a flexibilidade da lei anterior, os voluntários ficaram surpresos com os resultados (observe no gráfico abaixo).
Veja o caso de Emiliana Ricardo, 20 anos. Com uma latinha de cerveja de 350 ml, o 0,11 miligrama de álcool por litro de ar expelido dos pulmões apontado no equipamento a deixaria livre. Agora, com a nova resolução, teria sido multada em R$ 1.915,30.
Torcer o nariz para o rigor da ou tentar sensibilizar o agente de trânsito não vai reverter o quadro, afirma o chefe de Operações Especiais da EPTC, Marcelo Cunha da Silva:
— Não trabalhamos com o bom senso. Trabalhamos com a lei.
A tolerância zero na fiscalização é motivo de preocupação de motoristas em pânico.
— É um assunto muito presente na autoescola e também nas rodas de amigos. Se for dirigir, não dá para beber nadinha. Temos medo da blitz — conta Emiliana.
Ao analisar os dados do teste, você pode se surpreender com o fato de um jovem ter tomado uma lata inteira de cerveja e outro, uma taça de vinho, e o bafômetro ter acusado zero de álcool. Diferentes fatores podem explicar o resultado, como a massa corporal do indivíduo, o sexo e a idade (quanto mais velho, mais devagar é o metabolismo, o que retarda a eliminação do álcool do organismo) e até a temperatura. São tantas as variáveis que até mesmos esses voluntários, se tomassem a mesma bebida em outra circunstâncias, poderiam apresentar resultados diferentes. Em geral, qualquer gota de álcool é detectada pelo bafômetro. É o caso dos aparentemente inofensivos bombons de licor ou os remédios florais. Mas como a legislação prevê a possibilidade de pedido de contraprova, nesses casos o recomendado é aguardar pelo menos 15 minutos e repetir o teste.
Há dúvida também em relação ao tempo que as pessoas levam para, depois do consumo de bebidas, voltar a dirigir sem se preocupar com o bafômetro? A resposta varia para cada pessoa, mas as autoridades de trânsito acreditam que cerca de oito horas de intervalo já são suficientes para se livrar dos efeitos do álcool.
Mas o melhor é seguir o enunciado do título desta reportagem: se beber, não dirija mesmo!
Como será a fiscalização
Estradas federais
l A operação carnaval começa à 0h de sexta-feira e termina na quarta-feira, à meia-noite.
l Policiais rodoviários federais devem realizar abordagens a qualquer hora do dia e em pontos diversificados, independente das barreiras da operação Viagem Segura, do Detran.
l As ações serão concentradas em locais de maior movimento, como estradas da Região Metropolitana, rodovias que levam ao Litoral e vias na região de Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria.
Estradas estaduais
l As ações serão divididas em duas etapas. Na primeira, da 0h de sexta-feira até o final da noite de sábado, e a segunda fase, de terça a quarta-feira, durante todo o dia.
l Serão concentradas ao longo de todas as estradas que levam ao Litoral Norte, como a ERS-040, ERS-030 e ERS-389.
l Haverá um reforço de 50% no efetivo, com 40 policiais a mais, além do patrulhamento normal no restante das estradas.
Porto Alegre
l Em Porto Alegre, serão cerca de 25 profissionais que integrarão o Balada Segura, incluindo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) e Brigada Militar.
l As barreiras da operação ocorrem de quinta a domingo, durante a noite e a madrugada.
l Na segunda e na terça-feira não haverá Balada Segura, mas os agentes de trânsito e policiais militares efetuarão blitz espalhadas por Porto Alegre.
Interior gaúcho
l No interior, sete município terão Balada Segura (Canoas, Guaíba, Esteio, Erechim, Pelotas, Alegrete, Ijuí e Passo Fundo) também a partir de quinta-feira.
l No Litoral Norte, duas equipes se revezam para organizar barreiras e uma no Litoral Sul. Haverá fiscalização nas praias ao longo de todo o dia. Nos balneários em que não está previsto o Balada Segura, haverá blitz da BM.
l Segundo o Comando da BM, haverá um aumento de 35%, já que os alunos do curso da corporação serão integrados aos efetivos.
A mudança
l A partir da publicação da resolução 432 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), na semana passada, ficou estabelecida tolerância zero ao álcool. No visor do bafômetro é admitido até 0,04 miligrama de álcool por litro de ar expelido dos pulmões, considerando a margem de erro do aparelho.
Como era
l A nova resolução complementa a Lei Seca, reformulada no final do ano passado e que já previa medidas mais duras, como o aumento da multa de R$ 957,70 para R$ 1.915,30.
l Para os casos de reincidência, o valor passa para R$ 3.830,60.
l Na hipótese de o motorista se negar a fazer o teste do bafômetro, o agente de fiscalização poderá aplicar a autuação administrativa e preencher o questionário de "Sinais de Alteração da Capacidade Psicomotora", que será anexado à autuação. Nesse caso, o condutor também poderá ser encaminhado à delegacia.
l O questionário apresenta informações como aparência do condutor, sinais de sonolência, olhos vermelhos, odor de álcool, agressividade, senso de orientação, fala alterada, entre outras características.








