Bastou uma hora para Porto Alegre submergir no meio da tarde de quarta-feira. Uma chuva torrencial, equivalente à média de 19 dias de precipitação em fevereiro, transformou ruas em rios caudalosos, ilhou moradores, paralisou o trânsito.
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O caos urbano provocado pela enxurrada levou a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) a recomendar à população que evitasse sair de casa. Antes do toque de recolher informal, um taxista foi encontrado morto em uma área alagada.
A incapacidade do Conduto Álvaro Chaves de dar conta da chuva deverá ser colocada em discussão pelo Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul (Senge/RS) nos próximos dias.
O integrante do conselho técnico da entidade Carlos André Bulhões Mendes, também vice-diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entende que a aparente fragilidade da obra diante da enxurrada precisa ser esclarecida.
O engenheiro conta que, quando ouviu dizer que uma parte do conduto teria cedido na Rua Coronel Bordini, não acreditou. Dirigiu-se até o local para analisar a cratera aberta junto à canalização que deveria escoar a água em excesso e acabou vítima dela.
— Pelo que eu pude ver, parte da obra cedeu. Ainda é cedo para tirar conclusões definitivas, mas é de certa forma inadmissível que tenha ocorrido isso com uma obra recém-terminada e que custou tanto dinheiro público — avalia o especialista.
Mendes revela que pretende apresentar o tema para ser debatido no Senge-RS. Uma das hipóteses que será avaliada é se houve alguma falha na execução do projeto. O engenheiro conta ainda que registrou imagens do local onde o solo cedeu para utilizar em aulas.
O diretor-geral do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), Tarso Boelter, afirma que técnicos da prefeitura deverão ir ao local fazer uma análise técnica somente nesta quinta-feira. Ontem, a área foi apenas isolada.
— Aparentemente, o terreno cedeu e houve um dano em uma estrutura de tijolos do conduto, chamada de anel. A princípio, seria um dano fácil de consertar. Mas somente após a vistoria poderemos ter certeza do que ocorreu — afirmou Boelter.
O diretor do DEP preferiu não comentar se é normal uma obra do porte do conduto apresentar esse tipo de problema antes da visita ao local.
O conduto é a maior obra de drenagem pluvial já feita na cidade e tem como missão controlar alagamentos em nove bairros. Foi construída entre 2005 e 2008 a um custo de R$ 59 milhões — com financiamento de 66% do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e contrapartida da prefeitura de 34%.
Quantidade de chuva não seria justificativa
Boelter ressalta que Porto Alegre está com obras contra cheias em pelo menos 10 pontos vitais, mas diz que nenhuma delas daria conta da chuva em apenas uma hora. O professor do IPH da UFRGS Carlos Tucci diz que a chance de uma chuva em torno de 70mm em uma hora ocorrer é de 5% em um ano, em Porto Alegre.
O especialista afirma que projetos de drenagem, via de regra, são previstos calculando chuvas com metade dessa intensidade. Para Mendes, porém, o alto volume da precipitação não deve servir como desculpa para a fragilidade revelada pelo conduto:
— Foi feito muito investimento nessa obra. A quantidade de chuva não justifica.
Confira como foi a cobertura da enxurrada à tarde:








