Dez palcos da Guerra dos Farrapos14/09/2012 | 05h38

Laguna foi atacada por terra e mar pelas tropas farroupilhas

Cidade catarinense foi alvo da cavalaria de David Canabarro e pelos lanchões de Giuseppe Garibaldi

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Laguna foi atacada por terra e mar pelas tropas farroupilhas Lauro Alves/Agencia RBS
Situada ao lado da matriz de Santo Antônio dos Anjos, Casa de Anita abriga um museu Foto: Lauro Alves / Agencia RBS
Nilson Mariano (textos) e Lauro Alves (imagens)

nilson.mariano@zerohora.com.br e lauro.alves@zerohora.com.br

Durou pouco mais de cem dias a estratégia dos farrapos de expandir o separatismo para Santa Catarina. Eles chegaram a proclamar a República Catarinense, batizada de Juliana por ter ocorrido em julho de 1839, mas não resistiram à reação avassaladora do Império do Brasil. Em novembro do mesmo ano, bateram em retirada, deixando mortos e feridos pelo caminho.

Os farroupilhas atacaram Laguna, por terra, pela cavalaria de David Canabarro e, pelo Oceano Atlântico, pelos lanchões de Giuseppe Garibaldi. Tinham duplo propósito: conquistar um porto marítimo (não conseguiam tomar o de Rio Grande e haviam sido expulsos de Porto Alegre) e espalhar a revolução para outras províncias. Queriam romper o garrote imperial.

No início, foram saudados como irmãos e libertadores. O historiador de Laguna, Carlos Marega, 65 anos, destaca que líderes catarinenses "eram simpáticos" aos ideais da rebelião deflagrada no Rio Grande do Sul. Estavam desiludidos com o Império. Também queriam formar uma república independente.

No decorrer da ocupação, no entanto, se arrependeram e trocaram de lado. Marega faz declarações com potencial para causar atritos perante determinados pesquisadores gaúchos. Ele sustenta que os farroupilhas se comportaram como bárbaros, praticando saques e abusos contra a população. Quando as tropas imperiais investiram,
os rio-grandenses já não tinham o apoio dos lagunenses.

— É uma das razões para que a República Juliana tenha durado tão pouco — analisa.
As recriminações de Marega estão amparadas por um dos chefes da expedição a Laguna - ninguém menos que Garibaldi. Nas memórias ditadas ao escritor Alexandre Dumas, o italiano expôs as razões para a perda do apoio catarinense:

— Nossa estupidez e nossa incivilidade...

O corsário combateu no Uruguai e na Itália, mas relatou que nenhum episódio o mortificou tanto quanto o massacre de Imaruí, próximo a Laguna. Como o povoado aderiu aos imperiais, ele recebeu ordens do general Canabarro para castigar "aquele pobre torrão". Garibaldi desculpou-se que "não tive escolha", deveria obedecer ao comandante. Planejava conter os excessos, mas lamentou que os soldados se tornaram "bestas ferozes" ao se embriagarem, que não pôde impedir a violência e a pilhagem.

— Que Deus, do alto da sua compaixão, posso perdoar-me — penalizou-se.

Dezenas de bois puxam barcos pelo campo

A tomada de Laguna não enseja apenas condutas militares reprováveis. No extremo oposto, evidenciou o destemor e os sacrifícios dos revoltosos. Em junho de 1839, Garibaldi e o mercenário norte-americano John Griggs, o João Grandão, promoveram uma epopeia no Rio Grande do Sul: transportaram os barcos Seival e Rio Pardo sobre rodas de carreta, tracionados por dezenas de bois, ao longo de cem quilômetros de campos, rumo à barra do Rio Tramandaí.

Os lanchões saíram do estaleiro de Garibaldi, na foz do Rio Camaquã com a Lagoa dos Patos, próximo da estância de Antônia Gonçalves, irmã do general Bento. Depois de navegarem onde foi possível, pela lagoa e pelo Rio Capivari, precisaram ser conduzidos por terra para alcançar o oceano e, então, desfraldar velas até Laguna.

— Os moradores do lugar deleitaram-se com um espetáculo invulgar e bizarro — contou Garibaldi em suas memórias.

Ludibriar a vigilância imperial para entrar no mar não foi o mais penoso. Na altura de Araranguá, em Santa Catarina, ocorreu um desastre na água. Fustigado por vento forte, Garibaldi procurou se aproximar da costa com o Rio Pardo, mas foi tragado pelas ondas e parte dos tripulantes se afogou.

O italiano e outros náufragos foram resgatados pelo Seival, pilotado por Griggs. Retomando a viagem, consumaram a ocupação de Laguna. O comandante imperial tentou resistir, mas abandonou a cidadela brindando os farroupilhas com naves de guerra, barcos mercantes, canhões, armas, pólvora, munição e fardas.

Baú farrapo

Laguna conserva a sala onde os farrapos acertaram a formação da República Juliana, no prédio do Paço do Conselho, erguido no século 18. Detalhe: o presidente do Estado Catharinense "livre e independente" era o padre Vicente Cordeiro. Desfeita a república, voltou a cuidar do rebanho católico. Todos os anos, é encenada a proclamação separatista no local.

No Paço do Conselho, situado no miolo histórico de Laguna, pode-se ver o mastro e uma lanterna que eram do barco Seival, de Garibaldi e John Griggs.

A Casa de Anita, ao lado da matriz de Santo Antônio dos Anjos, não foi a residência de Ana Maria de Jesus Ribeiro. No entanto, ela teria usado o lugar para vestir-se de noiva, antes de entrar na igreja para se casar com Manuel Duarte de Aguiar.

Atualmente um museu, a Casa de Anita expõe objetos como uma tesoura e uma máquina de costura que teriam sido utilizadas para confeccionar o vestido de noiva de Ana Maria. Atendentes do museu, Débora da Silva e Helena Constante, ambas de 16 anos, costumam informar aos turistas que Anita se casou a contragosto, tinha somente 14 anos quando subiu ao altar.

Turistas da China, Austrália, Itália e dos Estados Unidos já visitaram a Casa de Anita. São fascinados pela mulher que foi aclamada "heroína de dois mundos" ao se unir a Garibaldi.

Uma paixão de dois mundos

Ana Maria de Jesus Ribeiro talvez estivesse a remendar camisas e a pregar botões naquele inverno de 1839, quando foi avistada pela luneta indiscreta de Giuseppe Garibaldi. Aos 18 anos, estava em casa, concentrada nos afazeres domésticos. Aos 32 anos, o italiano postara-se no barco Itaparica, atracado na praia, para espionar as mulheres de Laguna.

Um dos comandantes da invasão a Santa Catarina, Garibaldi revelou, no seu livro de memórias, que contemplava "belas jovens" pela lente ampliada. Até que uma delas o fez esquecer da frustrada paixão por Manoela Ferreira, a quem conhecera ao se hospedar na estância de familiares de Bento Gonçalves, às margens do Rio Camaquã.
Garibaldi simplesmente desembarcou, caminhou até a casa, ignorou o marido de Anita, o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar, e exclamou à porta:

— Virgem criatura, tu serás minha!

E a costureirinha Ana Maria virou Anita, passando a lutar ao lado de Garibaldi na Revolução Farroupilha e depois na Itália. Morreu em 1849, aos 28 anos, agonizando doente em mais um front. Teve três filhos com o corsário, um deles nascido no Rio Grande do Sul.

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