Especial Semana Farroupilha20/09/2012 | 03h47

Causos de João Furtuoso: duas histórias

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Até esta quinta-feira, zerohora.com publica a série de contos "Causos de João Furtuoso", em comemoração à Semana Farroupilha. Personagem criado por Dioclécio Lopes, João Furtuoso é protagonista das narrativas ambientadas na zona rural, mais precisamente em um lugar chamado Bom Jardim, palco da difusão dos costumes, dos afazeres e da linguagem utilizada pelas gentes que marcam e mantêm acesa a cultura gaúcha.

* * *

OS LAMPIÕES já estavam acesos quando João Furtuoso e Terêncio apearam diante da venda do Seu Acácio,  cansados e famintos. Foram entregar três touros mui lindos, escolhidos a dedo pelo proprietário da Estância dos Borges, fazendeiro tido como de lua e muito muquirana.      

Por trás do balcão, Seu Acácio saboreava grandes sorvos do chimarrão de erva grossa. Enquanto a cuia passeava pelo recinto, ele preparava com habilidade o cigarro de palha: primeiro, picando miudinho o fumo crioulo, depois espremendo-o na palma da mão, para finalmente enrolá-lo na palha cortada a faca e acendê-lo com o isqueiro prateado. Num canto da venda, jogavam cartas e tomavam tragos uns viventes de caras estrangeiras. Um mais saliente, cabelos lisos sobre a testa, vendo que já se fazia público, engrossou a voz para contar um causo de peleia braba.

“Mas nem lhes conto na confusão em que me meti em uma bailanta lá pras bandas do Cerro Largo. Não é que um vivente mais grosso que dedo destroncado levou  um carão da moça mais bonita da festa?! Tirou aquilo como um grande desaforo, quis puxá-la à força para a dança. O pai – um sujeito seco como graveto – ao sair em defesa da filha levou um safanão que lhe escureceu as vistas e o colocou em coma profundo. E, na sequência, dois atarracados primos da moça tiveram a testa lavrada por um punhal afiado. Mas aí, meus amigos, o meu senso de justiça acordou. Pedi licença à moçoila com quem eu fazia par naquele baile, garantindo-lhe que comigo ninguém tirava farinha. Chamei o prevalecido para  a rua. Os viventes deixaram a arena livre, repetindo que ‘essa vai ser das boas’, ‘essa vai ser das boas’. Mas não precisou muito esforço: num jogo de corpo, escapei de um golpe do valentão, ao mesmo tempo que lhe meti um tapa certeiro no ouvido e, em única rasteira, deixei o vivente estirado sobre os pedregulhos, gemendo mais que farrapo ferido. De  imediato, algemei-o com as maneias do meu mangalarga. Lhe atirei sobre o lombo do seu matungo e espantei o animal para que pegasse o rumo do rancho do pobre diabo.” 

Conta-se que João Furtuoso, percebendo que o causo não tinha um pingo de fundamento, cofiou o bigode espesso e lascou esta:
        
“Pois certa feita estava eu na barranca do Arroio dos Tigres, solito. Soltei a linha e fiquei à espera de peixe graúdo, de preferência um dourado, que esse é dos bons. Logo em seguida, senti a fisgada e já dei a primeira puxada, depois fui trazendo a presa bem devagarinho porque quem tem pressa come cru. Pelo peso era bicho dos grandes, o que daria de sobra pro almoço. E fui trazendo no capricho, cada vez mais perto... mais e mais e mais, até que... Vocês não vão acreditar! 

— Fala, homem! — pediram todos, agoniados.

— Vão me dizer que é uma piada, mas digo pela luz que me ilumina, que em vez
do dourado, o que fisguei foi um rádio de pilha sintonizado num programa em que um ouvinte pedia ao apresentador que tocassem Canto Alegretense e o Gaúcho de Passo Fundo em homenagem à sua namorada aniversariante.



— Mas que baita mentira — gritou o contador de histórias, socando a mesa com raiva.
         
Com a maior calma do mundo, Furtuoso lhe fez a seguinte proposta:
         
— Vamos fazer o seguinte, vivente: se tu retirar a rasteira e as maneias da tua história, eu até desligo o meu rádio. 
           
— Credo, homidideus, essa dava pra concorrer até em Nova Bréscia, 
hein?!  —  disse dessa vez  Furtuoso, levantando a aba do chapéu de barbicacho, enquanto o falastrão, a contragosto, dava-lhe as costas, pagava a conta e tomava o rumo da estrada.

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