10 anos sem Lutzenberger

Lições de ecologia de um ilustre gaúcho

 

Em meio à diversidade da fauna e da flora nativa, aliada ao exotismo de espécies africanas, o Rincão Gaia dissemina práticas de baixo impacto ambiental. O local situado a 120 quilômetros de Porto Alegre promove atividades de educação ambiental e de agricultura ecológica. Fundado por Luzenberger em 1987 representa um legado físico e uma marca simbólica das ideias do ambientalista gaúcho.

Guilherme Mazui | guilherme.mazui@zerohora.com.br

Há 10 anos a voz do maior ambientalista brasileiro silenciava. Caminho contrário ao dos seus pensamentos.

Intenso, curioso, muitas vezes agressivo e tachado de fanático, José Antonio Lutzenberger antecipou a partir dos anos 70 conceitos disseminados pela sustentabilidade. Apesar da ausência física, que hoje completa uma década, o legado do gaúcho que girou mundo em defesa da natureza se perpetua na atualidade do seu discurso.

- Por que eu sempre nado contra a corrente? Porque só assim se chega às nascentes.

A frase de Lutz escancara seu modo de ser, sensível com a vida e avesso ao senso comum. Progresso contínuo, a qualquer custo? Ele criticou. Lavouras com agrotóxicos? Abominou. Desmatamento na Amazônia? Combateu. Excesso de carros nas ruas? Contrariou. Usinas nucleares? Sempre se opôs.

- É difícil encontrar um tema em que suas ideias não continuem atuais. Ele foi um visionário, tinha uma visão de que a Terra é um sistema integrado, de que o homem deveria aprender com a natureza, e não combatê-la - destaca Lilian Dreyer, autora de Sinfonia Inacabada, biografia do ambientalista.

Porto-alegrense de origem germânica, Lutz nasceu em 17 de dezembro de 1926. Vítima de problemas pulmonares e cardíacos, morreu na manhã de 14 de maio de 2002. Dos seus 75 anos, dedicou mais de 30 ao ativismo ecológico, numa guinada que poucos teriam coragem de empreender.

A figura longilínea com cabelos lisos e desgrenhados, de olhos claros protegidos pelos óculos, tornou-se ícone do ambientalismo no Brasil e no mundo. Mas até 1970, remetia a um executivo da indústria química. Pela Basf, viveu na Alemanha, Venezuela e Marrocos. Quando a empresa passou a produzir agrotóxicos, renunciou à segurança do cargo e aos altos salários. Aos 44 anos, casado com a eurasiana Annemarie, e com as filhas Lilly e Lara pequenas, Lutz voltou a Porto Alegre como ecólogo. Em seguida, aflorou sua veia de ecologista.

Agrônomo pós-graduado em química, via a queda de uma árvore ou o esmigalhar de uma formiga como agressão a seu próprio corpo. Militou por respeito a Gaia, nome dado pelos gregos à deusa da Terra. Assim, em abril de 1971 inspirou a criação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), entidade que puxou lutas contra podas de árvores, agrotóxicos, desmatamento. Em 1973, forçou o fechamento da Borregaard, indústria de celulose que poluía o Guaíba. Todos feitos embalados pelo magnetismo da fala e da presença de Lutz. Fluente em cinco idiomas (português, inglês, alemão, francês e espanhol), leitor voraz, virou um exímio palestrante - sem medo de embates com executivos, governadores, presidentes ou ministros. A linha de raciocínio, a intensidade, os argumentos conquistaram plateias de qualquer gênero ou renda. De colonos do interior de Montenegro a engravatados em reuniões de cúpula da ONU.

- Meu pai se expressava de forma espontânea, sem preocupar-se com o julgamento alheio ou fixar-se a convenções sociais. Nisso se tornava muitas vezes caricato e assumia uma figura quixotesca na defesa de suas ideias - recorda a filha Lara.

A entrega à natureza rendeu a Lutz, em 1988, o prêmio sueco The Right Livelihood Award, o Nobel Alternativo. De 1990 a 1992, foi secretário do Meio Ambiente do governo Collor e tentou mudar o conceito de administração do país, mas fracassou. Ainda concebeu o Parque da Guarita, em Torres, fez projetos ecológicos, criou uma empresa de consultoria ambiental e a Fundação Gaia. Em Pantano Grande, transformou uma antiga pedreira em seu santuário, o Rincão Gaia. É onde seu corpo repousa na terra, entre árvores, há uma década. Um sepulcro da carne, que simboliza um dos seus preceitos: homem e natureza estão unidos no mesmo sistema.

 

Rincão Gaia: recanto de prática ecorresponsável no pampa gaúcho

Antes e depois: veja como era a área de exploração de basalto em Pantano Grande e como ficou depois que Lutz criou o Rincão Gaia

 
 
(Dulce Helfer/Agencia RBS)

Entrega à natureza

Lutzenberger: o ambientalista que antecipou a sustentabilidade

Controverso à época, o legado de Lutz antecipou alguns dos conceitos sobre sustentabilidade.
Confira as ideias defendidas pelo ambientalista:

Estilo de Vida

Lutz pregava uma revolução no estilo de vida, numa relação mais alinhada à natureza. Questionava a necessidade de crescimento contínuo, já que o homem habita um planeta com recursos finitos. Para ele, era urgente sustar a cultura de consumir sem freio, que aquece a economia, mas cobra em recursos naturais. Entendia que o mercado considerar as necessidades das gerações futuras.

Agricultura

Lutz empreendeu uma cruzada contra os agrotóxicos. A partir dos anos 70, passou a palestrar pelo mundo e a assinar manifestos alertando os riscos que os pesticidas podem trazer à saúde. Liderou uma militância que resultou em leis para restringir o comércio dos produtos. Também confiava numa agricultura de viés ecológico, inspirado na cultura camponesa. Incentivou a produção de alimentos saudáveis com insumos naturais, cultivados em pequenas comunidades.

Clima

Já nos anos 70, Lutz tinha certeza de que a devastação das florestas, a poluição, a construção desenfreada nas cidades provocariam mudanças climáticas. Tinha ciência de que a Terra é um organismo único. Dentro da ideia, enalteceu a importância da Amazônia no equilíbrio do planeta. Defendeu o fim do desmatamento, contrariou planos para incentivar grandes plantações ou assentamentos na região, e demarcou reservas de tribos indígenas, como os ianomâmis.

Resíduos

A natureza não gera lixo. Os resíduos são reaproveitados, fechando um ciclo que preserva o ecossistema. O exemplo tirado do ambiente embasava as ideias de Lutz para o destino do lixo gerado pelo homem, tanto na cidade quanto nas indústrias. Como consultor ambiental, elaborou projetos com tal finalidade. Já na década de 80 usou a compostagem para criar fertilizantes naturais. O princípio de criar sistemas capazes de reaproveitar detritos se disseminou.

Economia

Chamado ainda de Produto Nacional Bruto (PNB), o PIB não poderia medir o desenvolvimento de uma nação. Lutz questionava o índice por levar em conta a soma das riquezas, deixando de lado saúde, segurança e cultura. O cálculo também esquece de recursos naturais consumidos, como petróleo, água e biodiversidade. Rever o PIB e o modelo econômico era um desejo do ambientalista para a Eco 92. Passados 20 anos, a Rio+20 discutirá o caminho para uma economia verde.

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