Parada total29/01/2014 | 21h26Atualizada em 30/01/2014 | 04h15

Como foi ficar um dia sem ônibus em Porto Alegre

Filas, atrasos, problemas no comércio e muita incomodação compuseram o cenário da greve na Capital

Enviar para um amigo
Como foi ficar um dia sem ônibus em Porto Alegre Carlos Macedo/Agencia RBS
Dificuldade da população para se locomover trouxe consequências em todas as dimensões da vida da cidade Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

No dia em que nenhum ônibus saiu das garagens em Porto Alegre, levando uma metrópole de 1,4 milhão de habitantes à asfixia, 124 pessoas formaram uma fila na Avenida Borges de Medeiros, sob um calor que chegou aos 38,2ºC, para embarcar na lotação Partenon-Pinheiro. Havia 21 lugares nos assentos e mais 10 de pé, graças a uma autorização extraordinária da prefeitura.

A 124ª passageira na fila era a grávida Monique Cardoso, 22 anos. Com 35 semanas de gestação, ela acabara de ser medicada para a dor e de receber do médico uma recomendação de repouso absoluto, mas tivera de caminhar uma hora sob o sol, desde o Hospital Presidente Vargas até Centro, para tentar voltar para casa. Às 17h15min, no último lugar da fila, sem previsão de quando conseguiria embarcar, Monique sofria com contrações.

— Estou apavorada. Eu não me liberaria, se fosse o médico — comentou.

A grávida da Lomba do Pinheiro esteve entre os cerca de 1 milhão de passageiros prejudicados nesta quarta-feira pela paralisação total do serviço de ônibus da Capital, decretada pelos rodoviários. A decisão da categoria, que contrariou determinação da Justiça, causou um transtorno raras vezes visto na rotina dos porto-alegrenses.

Para a maior parte da população, a saída foi disputar um lugar nas poucas alternativas disponíveis.

Com a liberação da prefeitura para o transporte de passageiros em pé, os lotações carregaram 65% de pessoas a mais do que o habitual.

Os táxis, conforme o sindicato da categoria, tiveram um incremento de 35% na quantidade de corridas. Trabalharam no limite. Em alguns horários, era quase impossível obter um veículo — pela manhã, usuários não conseguiam sequer contatar os sobrecarregados serviços por telefone. Segundo Vilson Camargo dos Santos, sócio-diretor da TeleTáxi Cidade, a espera dos passageiros chegou a duas horas e meia nos momentos mais complicados. Por volta das 7h30min, ele tinha mais de cem passageiros esperando um táxi, por falta de veículos para enviar.

— Tivemos de contatar passageiros que iam para a rodoviária ou o aeroporto e dizer que não estávamos conseguindo atender, para eles tentarem algum transporte alternativo — disse Santos.

Uma novidade foram as várias chamadas solicitando táxis para pegar passageiros em dois, três ou até quatro lugares diferentes — eram colegas que partilhavam uma corrida para o trabalho.

Segundo a EPTC, a greve aumentou em 20% o número de veículos particulares nas ruas.

Durante todo o dia, houve congestionamentos em locais onde eles não costumam ocorrer. A dificuldade da população para se locomover trouxe consequências em todas as dimensões da vida da cidade. O impacto foi pesado no comércio.

Segundo um levantamento do Sindilojas, a queda nas vendas foi de 25%.

A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) calculou a perda em 50% no comércio de rua e em 30% nos shoppings. De acordo com a entidade, 10% dos comerciários não conseguiram chegar aos locais de trabalho. Houve lojas que penaram para abrir as portas.

Dos 24 funcionários aguardados em uma das unidades da Colombo na Avenida da Azenha, somente 10 conseguiram chegar — três deles no horário previsto. Com 3h30min de atraso, o expediente se iniciou às 12h30min. Perto dali, na CR Diementz, registrou-se demora ainda maior. Três dos oito empregados estavam a postos às 9h ou com poucos minutos de atraso, mas só puderam abrir as portas às 15h, com outros dois colegas remanejados de uma loja da rede em Viamão. No reduzido período de operação, as vendas atingiram apenas 20% do total de um dia normal.

— Como a gente é comissionado, não ganha nada se passar um dia sem vender — lamentava o atendente Gabriel Escobar, 24 anos.

Serviços básicos e essenciais também tiveram problemas para funcionar. As agências do Tudo Fácil, que concentram serviços do governo do Estado, não atenderam no Centro e na Zona Sul, por falta do mínimo necessário de servidores. A única que funcionou foi a da Zona Norte, e mesmo assim com restrições e maior tempo de espera — conseguiu abrir porque vários funcionários moram em municípios vizinhos e usaram os ônibus metropolitanos.

Na área da saúde, o Hospital de Pronto Socorro contou com três ônibus cedidos pela Carris.

A medida permitiu transportar funcionários e garantir os serviços. Foi montado um roteiro dos coletivos pela cidade, de forma a carregar o máximo possível de trabalhadores. Mesmo assim, segundo a prefeitura, todas as unidades de saúde da Capital funcionaram ontem com equipes desfalcadas.

O Grupo Hospitalar Conceição afirmou não ser possível contabilizar o número de ausências e atrasos, mas confirmou que houve transtornos e necessidade de adequações nos horários de plantão. Segundo o hospital, pacientes que perderam consultas poderão reagendá-las.

Bancos também enfrentaram dificuldades, porque não havia o contingente mínimo de segurança.

Algumas agências tiveram de atrasar até as 11h30min o horário de abertura.

Na área da administração municipal, houve problemas generalizados. O 156, linha unificada de atendimento à população, contou com apenas metade dos 65 atendentes. No horário de pico, quando trabalham 30 pessoas, só havia nove. A loja da Secretaria Municipal da Fazenda não funcionou. O posto do Procom na Rua da Praia encerrou o atendimento mais cedo.

Na Secretaria Municipal do Meio Ambiente, metade dos funcionários que trabalham na execução dos serviços de rua não conseguiu chegar. Foram atendidas apenas situações urgentes.

A Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) usou sua frota para buscar os trabalhadores em casa, mas a ação foi insuficiente para garantir todos os serviços. O Centro Dia do Idoso Sul, por exemplo, não pode efetuou o serviço de busca domiciliar para atendimento. Alguns dos Centros de Referência de Assistência Social encerraram o expediente mais cedo. A Linha Turismo não circulou porque os veículos não puderam sair da garagem da Carris.

Nos locais de trabalho, o expediente funcionou à meia boca. Só quatro dos sete funcionários do Sindicato do Ensino Privado (Sinepe/RS), que pagou os deslocamentos de táxi, conseguiram chegar à sede da entidade. A direção antecipou o horário de saída das 18h para as 16h, preocupada com a dificuldade que os trabalhadores teriam para conseguir transporte no horário do pico. No Fórum Central, o atendimento teve de ser reorganizado por causa da escassez de gente. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) encaminhou ofícios aos principais tribunais, pedindo a suspensão de prazos processuais, em razão das dificuldades de deslocamento.

Com a falta de alternativas de transporte, oportunistas enxergaram uma oportunidade para faturar. Enquanto Monique aguardava por sua vez de embarcar em um lotação, um ônibus branco parou na Avenida Senador Salgado Filho, por onde a fila serpenteava. Da porta, um homem gritou:

— Lomba do Pinheiro, R$ 3!

A mãe da gestante, que não pôde comparecer ao trabalho, no bairro Menino Deus, por falta de condução, considerou embarcar no veículo irregular.

— Mas você vai ter que ir de pé — constatou a zeladora Dalva Cardoso, 57 anos.

— De pé eu não vou — recusou Monique.

E continuou à espera.

Leia mais:
Sindicato pede a rodoviários que cumpram decisão da Justiça
Rodoviários decretam greve geral após reunião sem acordo
TCE votará resultado da avaliação sobre transporte público
Ministra da Casa Civil pede relatório sobre paralisação
Como a paralisação dos rodoviários alterou sua rotina?

VÍDEO: falta de ônibus provoca filas e procura intensa por lotações

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga perfis de ZH no Twitter

  • zerohora

    zerohora

    Zero Hora'Só olhávamos os helicópteros trazendo os corpos', relata catarinense que está no Monte Everest: http://t.co/XnmDoCflZxhá 1 horaRetweet
  • zerohora

    zerohora

    Zero HoraDescobertas de lua com água e planeta em zona habitável aumentam chances de vida fora da Terra: http://t.co/paTFSVBQYahá 1 horaRetweet
clicRBS
Nova busca - outros