10 meses depois13/12/2013 | 16h51

Jovem que teve couro cabeludo arrancado por kart em parque luta para seguir o tratamento em casa

Fernanda Jienifer Dryer, 23 anos, está há dois meses sem receber ressarcimento dos cerca de R$ 2,5 mil reais que gasta com medicamentos

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Jovem que teve couro cabeludo arrancado por kart em parque luta para seguir o tratamento em casa Diogo Zanatta/Especial
Moradora de Panambi passou por 19 cirurgias Foto: Diogo Zanatta / Especial
Fernanda da Costa, de Panambi

fernandadacpsta@zerohora.com.br

O que era para ser um dia de diversão transformou a vida da gaúcha Fernanda Jienifer Dryer, 23 anos, em um pesadelo. Dez meses depois de ter o couro cabeludo arrancado por um kart no parque Beto Carrero World, em Penha, Santa Catarina, a jovem hoje vive uma rotina embargada por dor e indignação.

Nos quatro meses em que esteve internada no Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, Fernanda passou por dois dias de coma induzido, seis de UTI e 19 cirurgias. As mais doloridas foram as de enxertos, em que os médicos retiravam pele da parte interna das coxas da jovem para implantar na cabeça. Ela ainda teve de viajar mais de 80 vezes para Blumenau, onde fazia tratamento com Medicina Hiperbárica. Depois da alta, a jovem passou mais dois meses em Itajaí, para receber acompanhamento médico.

Em casa desde agosto, em Panambi, no Noroeste, Fernanda ainda está longe de ter uma vida normal. O relógio acusa 5h quando ela tem de acordar e contar com a ajuda do namorado Álvaro Ramos, 26 anos, para trocar os curativos. Sozinha, afirma que não conseguiria.

O companheiro desperta no mesmo horário, coloca luvas cirúrgicas, retira os curativos e limpa minuciosamente as feridas que abrangem toda a área superior da cabeça da namorada. Depois, faz curativos novos e deixa que Fernanda coloque a touca de proteção que permite que ela use uma peruca. O procedimento diário leva no mínimo meia hora e ainda é muito doloroso para a jovem.

— A pele é muito fina e às vezes sangra. Não posso nem encostar a cabeça no travesseiro para dormir, tenho que deitar de lado e isso fez até uma ferida na minha orelha — conta a jovem apontando para um caroço muito avermelhado na orelha esquerda.

A corrida por ajuda

Além da dor, Fernanda ainda tem de enfrentar outro problema: o custo do tratamento. Depois da trágica corrida na pista do parque de diversões, ela agora é obrigada a correr atrás de recursos para seguir os cuidados em casa. Por mês, são cerca de R$ 2,5 mil reais em materiais para curativos e medicamentos, como antibióticos, e a cada seis meses a jovem terá de adquirir uma peruca nova. O modelo mais adequado de prótese para não prejudicar as feridas custa cerca de R$ 6 mil.

Gastos excessivos para alguém que trabalha na área de engenharia de processos de uma empresa do setor metal-mecânico e ainda tem de pagar a faculdade. Ela cursa Engenharia Mecânica na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) e, por causa do acidente, terá de atrasar no mínimo um ano a formatura, que seria este semestre. Para cuidar da namorada, Álvaro perdeu o emprego que tinha como caminhoneiro e ficou sete meses desempregado. Hoje, ele trabalha na mesma empresa que a namorada, na área de transporte interno.

Em vídeo, Fernanda conta como o acidente aconteceu:



Para conseguir o ressarcimento do que gasta com medicamentos, Fernanda conta que tem de enviar por correio as notas fiscais originais para o parque de diversões, que não as aceita digitalizadas. Nos últimos dois meses, ela não recebeu ajuda nenhuma do estabelecimento:

— Eu tenho que implorar por ressarcimento, eles não respondem nem meus e-mails. Estou preocupada com uma prótese que encomendei. Como preciso trocar a que tenho, paguei a parcela da nova, mas não tenho condições de pagar tudo — explica Fernanda.

Com a sobrancelha direita mais alta que a esquerda, a estudante espera ter recursos para fazer uma cirurgia plástica que corrija o problema. Outro desejo barrado pela falta de dinheiro é um tratamento a laser para amenizar duas cicatrizes que cortam o lado direito do rosto da jovem, da altura da orelha até o olho. Fernanda relata que procurou um especialista, mas como cada sessão de laser custa R$ 300, teve de adiar o tratamento.

— Não tenho como pagar e enviar a nota para eles. Não é só por vaidade, eu quero ter uma vida normal. As pessoas me olham estranho assim — diz com o rosto molhado pelas lágrimas.

Fernanda precisa trocar curativos diariamente
Foto: Diogo Zanatta, Especial

Por isso, ela pretende entrar na Justiça para conseguir uma indenização do parque.

— De todos os casos que já trabalhei, este é o de maior omissão do responsável pelo acidente. Esta menina foi mutilada e eles estão devendo os medicamentos para ela, não tiveram consideração nenhuma. Disseram que pagaram o hospital, mas quem deu o cheque ao hospital foi a seguradora — afirma o advogado Eduardo Barbosa.

Em nota, a assessoria de imprensa do Beto Carrero World afirmou que o parque prestou assistência total à vítima e familiares, embora o kartódromo seja administrado por outra empresa (confira a nota na íntegra no final desta notícia). 

ENTREVISTA
“Não recebi a balaclava e meu cabelo prendeu no motor”, diz Fernanda

A maquiagem preta no contorno superior dos olhos e o penteado semipreso que fez com a peruca revelam a vaidade de Fernanda. Ela conversou com Zero Hora na sala do apartamento onde mora com o namorado em Panambi. Sem conter o choro, que vinha naturalmente a cada lembrança, ela relatou o sofrimento que ainda vive por causa do acidente e lamentou o diagnóstico de que não poderá fazer um implante de cabelo.

Zero Hora – Como o acidente aconteceu?
Fernanda Jienifer Dryer –
Fui ao parque com uma amiga, em uma excursão de Panambi. Eu estava animada porque nunca tinha ido lá. Saímos sexta-feira daqui e iríamos passar o sábado lá, dia 2 de fevereiro, e depois voltar direto, sem dormir. Fomos em três brinquedos na manhã de sábado e o quarto foi kart. Antes de andar assistimos a um vídeo que mostrava instruções de segurança, mas não nos deram a balaclava, que aparecia no vídeo. A moça falou para amarrarmos os cabelos e colocarmos o capacete. Andei cinco minutos e senti um puxão muito forte no cabelo. Quando eu vi estava sem capacete. Coloquei a mão na cabeça e senti que estava sem a pele, perdi muito sangue.

ZH – Então faltou um equipamento de segurança?
Fernanda –
Sim. Não recebi a balaclava e meu cabelo prendeu no motor. A Sheila (amiga) também não recebeu, poderia ter acontecido o mesmo com ela. Acho que a balaclava poderia ter evitado o acidente.

ZH – Você foi levada para um hospital em Itajaí, como foi a recuperação?
Fernanda –
O pior foi ficar seis meses longe de casa, porque depois da alta ainda fiquei dois meses lá, para receber acompanhamento do médico. Foram muitas cirurgias e as mais doloridas eram os enxertos. Como tiraram pele das pernas, eu não conseguia caminhar. Eu também tinha que dormir sentada, para não correr o risco de encostar a cabeça no travesseiro e machucar a pele implantada.

ZH – E como é sua rotina hoje?
Fernanda –
Ainda é muito dolorida, porque eu tenho que trocar os curativos todos os dias e às vezes as feridas sangram. Eu tranquei a faculdade no primeiro semestre e voltei a estudar agora, mas só curso duas disciplinas, o que atrasará no mínimo um ano a minha formatura. Não posso sair quando tem muito vento, porque tenho medo que a peruca voe. Também tenho que cuidar para ninguém puxar ela quando me abraça. Eu gostaria de ir a um psicólogo, mas não tenho dinheiro agora. Queria que o Álvaro (namorado) fosse também, porque ele sofre comigo.

ZH – Você tem esperanças de ter cabelo novamente?
Fernanda –
Eu tinha, mas o médico que me examinou disse que não dá para fazer implante. No hospital de Itajaí, já tinham dito que não iria crescer novamente, mas pensei que pudesse fazer um implante. Em outubro eu consegui uma consulta com um cirurgião capilar da equipe do Ivo Pitanguy, no Rio de Janeiro, para ver a possibilidade do implante, mas ele disse que eu tenho muita área para receber cabelo e pouca para doar. Talvez no futuro tenha alguma alternativa.

CONTRAPONTO
Confira na íntegra a nota enviada pela assessoria de imprensa do Beto Carrero World:

A família Beto Carrero World lamenta muito o ocorrido com Fernanda J. Dryer, no entanto, independentemente de qualquer análise de culpa, a empresa prestou assistência total desde o início à Fernanda e seus familiares, não somente no que se refere ao tratamento médico, hospitalar, psicológico, como também hospedagem e alimentação, visando o melhor restabelecimento possível para Fernanda e seu companheiro.

Após dois meses de acompanhamento médico teve a liberação para retornar à sua residência, sendo conduzida sob o amparo da empresa. O Beto Carrero World continuou prestando todo o apoio possível e mantendo contato direto com Fernanda, até ser suspenso por determinação expressa de seu advogado.

Embora o kartódromo seja de responsabilidade e administrado por outra empresa, por questões éticas, morais e humanas, em momento algum, o Beto Carrero World mediu esforços ou negou-se a prestar qualquer auxílio que promovesse o bem estar de Fernanda e seus familiares. Do ponto de vista estético, preocupou-se, também, em procurar médicos especialistas que indicaram o modelo adequado de prótese, sendo que duas lhe foram entregues antes de seu retorno ao Rio Grande do Sul.

Em cumprimento aos valores da empresa, o Beto Carrero World prestou toda a assistência, estando ciente que a empresa responsável pelo kartódromo estava em contato direto com o advogado da família, em razão da responsabilidade que lhe é atribuída contratualmente. A empresa que explora a atividade de kart está no ramo há mais de 17 anos, tendo todo o know how nesse segmento, adotando todas as medidas necessárias para o exercício da atividade e está buscando um entendimento com Fernanda e seus familiares.

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