Corrente nacional15/06/2013 | 13h04

Inspirados em Porto Alegre, protestos em série contra reajustes na tarifa de ônibus se espalham pelo país

Movimentos se fortalecem por interação e até “treinamento” entre grupos, inclusive via internet

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Inspirados em Porto Alegre, protestos em série contra reajustes na tarifa de ônibus se espalham pelo país Gabriela Biló/Futura Press
Faixa exibida quinta-feira em São Paulo aponta Capital como inspiração para queixa Foto: Gabriela Biló / Futura Press

“Esse valor é um roubo!”. “Se a passagem não baixar, vamos parar!” Os argumentos se repetem pelo país. Mas não são por coincidência. 

A onda de protestos contra os reajustes na tarifa de ônibus, que atinge capitais e cidades do país, começou a ser gestada em Porto Alegre. 

Debaixo de chuva, entre os milhares de manifestantes que comemoravam, no início de abril, a liminar que congelou em R$ 2,85 o preço da passagem, também havia paulistas e catarinenses insatisfeitos com o custo e a qualidade do transporte coletivo. E eles não estavam a passeio. 

A missão dos “infiltrados” era a de compartilhar, depois, a experiência dos manifestantes gaúchos, que desde janeiro vinham ocupando as ruas, chamando a atenção pelo país.

A tarefa foi levada a sério. Tanto que, dois meses depois, no primeiro ato em São Paulo, uma faixa carregada por manifestantes continha os seguintes dizeres: “Vamos repetir Porto Alegre”.



Envolvidos com os protestos desencadeados em São Paulo e Rio de Janeiro, a Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (Anel) e o Movimento Passe Livre (MPL) estiveram entre os que enviaram seus representantes. 

Além da experiência in loco, as redes sociais também foram aliadas na articulação que culminou em protestos em sete capitais na quinta-feira. 

Para Michel Oliveira, 29 anos, integrante do grupo Vamos à Luta no Rio de Janeiro, Porto Alegre foi mais do que uma inspiração. 

— Serviu para que o movimento começasse a se nacionalizar — garante. 

Segundo ele, mais cidades deverão aderir nos próximos dias, como capitais das regiões Norte e Nordeste. 

— Não vamos sair das ruas enquanto a tarifa não baixar — promete. 

O MPL, criado justamente durante o Fórum Social Mundial, em 2005, na capital gaúcha, se diz “autônomo, independente e apartidário” e está em oito cidades. Conforme Caio Martins, 19 anos, estudante de História da Universidade de São Paulo (USP), a bandeira do grupo é a tarifa zero. 

Integrante da executiva nacional da Anel – surgida em 2009 como uma alternativa à União Nacional dos Estudantes (UNE) — Arielly Tavares Moreira, 23 anos, reconhece que depredações registradas em movimentos recentes não são bem vistas pela população, mas pondera: 

— São atos individuais, que não nos representam, mas isso não justifica a ação da polícia. 

*Colaborou Humberto Trezzi 

Onda de manifestações se expande e chega ao Exterior 

Espalhados pelo país, os grupos que organizam os protestos preparam uma nova manifestação em nível nacional, que pode acontecer ainda esta semana. A data ainda não foi definida. O MPL e a Anel também prometem mirar alvos como a Copa de 2014, e adiantam que o transporte deve ser pauta por bom tempo.

Em São Paulo, a próxima manifestação está marcada para segunda-feira. Em Porto Alegre tudo dependerá do que for acordado neste domingo. 

Além disso, pelo menos 27 cidades da Europa, América Latina e dos Estados Unidos organizam eventos, via Facebook, em apoio aos protestos realizados no Brasil. Em Paris, na França, o ato — que repudia a repressão policial — deve ocorrer terça-feira, em frente à embaixada brasileira. Madri, Londres, Lisboa, Berlim, Nova York e Buenos Aires também planejam manifestações. 

Minoria barulhenta se impõe 

A cena tem se repetido nos protestos em Porto Alegre: uma multidão toma conta das ruas, de forma ordenada, gritando slogans. Não batem, apenas protestam. De repente, um grupo de mascarados destoa e começa a depredar. 

Nos primeiros atos, miravam contra símbolos da causa, como a sede da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) e a prefeitura. Agora, direcionam-se contra o que simboliza poder, como prédios do Judiciário, bancos e lojas. 

Mas o comportamento é condenado por manifestantes moderados. Um deles colocou um cartaz numa agência do Banrisul depredada: “Isso não representa o movimento”. 

Especialistas apontam a vanguarda e o charme exercido pelo radicalisno sobre alguns jovens como motivos para atitudes violentas. Professor da PUC-RS, pós-doutor em Sociologia e especialista em movimentos sociais, Emil Sobottka acredita que, na Capital, um pequeno grupo anarquista lidera os protestos. E a ideologia anarquista, diz ele, não quer aperfeiçoar as instituições, mas questioná-las. 

Para o sociólogo italiano Mássimo Di Felice, especialista em Teoria da Opinião Pública e professor da USP, a minoria barulhenta age com violência porque não teve interlocutores entre as autoridades. 

— Quanto menos o manifestante é ouvido, mais o ativista violento prepondera. E essas passeatas, a chamada democracia interativa, vão imperar agora — aposta Di Felice.

Cronologia da mobilização

— Em Porto Alegre, as manifestações tiveram início em janeiro, às vésperas de as empresas de ônibus pedirem aumento de 15,8% no preço da passagem. 

— O reajuste de 7%, que elevou a tarifa para R$ 3,05, entrou em vigor no dia 25 de março. A medida acabou engrossando os protestos. 

— No dia 4 de abril, a Justiça gaúcha concedeu liminar que suspendeu o aumento, mas a mobilização foi mantida. 

— Em 15 de maio, grupos de Natal (RN) deflagraram o movimento Revolta do Busão.

— As manifestações em São Paulo começaram a ganhar força a partir de 6 de junho.

— Rio de Janeiro, São Paulo, Natal, Parnamirim-RN, Porto Alegre, Maceió, Santos, Santarém-PA, Aracaju, São Carlos-SP e Sorocaba-SP são algumas das cidades que participaram do ato nacional, organizado e executado na quinta-feira.

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