Três dias depois que a água fervente da caneca em que pretendia preparar café foi derramada e queimou 30% do corpo de seu filho, de um ano e três meses, a dona de casa Aline de Moura Krack, 19 anos, conseguiu enfim a transferência do menino para uma unidade especializada no tratamento de queimados em Porto Alegre, por determinação judicial.
Mais do que um drama pessoal, a peregrinação da família de Santa Vitória do Palmar em busca de atendimento expõe o drama da falta de leitos de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde, que tem utilizado ações na Justiça para garantir o que deveria ser um direito básico.
Celebrada pelos parentes com alívio, a chegada do bebê Diego Welinton de Moura Jardim ao Hospital Cristo Redentor, na manhã de terça-feira, após transferência de avião do Hospital Universitário de Rio Grande até o aeroporto Salgado Filho, foi precedida de uma agonia conhecida por quem enfrenta longas filas no sistema de saúde. Na primeira tentativa de atendimento, no Hospital Santa Casa de Santa Vitória do Palmar, foram seis horas de espera por um pediatra.
— O que mais me doeu foi que o doutor falou: "não posso fazer nada por ele". Tu ali com o filho nos braços, parecia que estava morto, e o médico diz que não pode fazer nada? — revolta-se a mãe.
A chegada do pediatra, à 1h da madrugada, pouco aliviou o sofrimento, pois a primeira tentativa de contato com a Central de Leitos se revelou vã. A informação era de que não havia vagas em UTIs pediátricas nem em unidades para queimados. Desesperados, parentes e amigos registraram a falta de especialista em ocorrência policial e acionaram o conselho tutelar, que levou o caso à promotoria.
Com o esforço, conseguiram, por meio de liminar judicial, a transferência para o Hospital Universitário de Rio Grande. O problema é que esta instituição tampouco estava equipada para tratar do bebê: não dispunha de UTI pediátrica, nem de unidade para queimados. Após nova determinação judicial, o menino acabou transferido para o Hospital Cristo Redentor.
— Agora sim meu filho está onde devia estar. Pra mim ele nasceu de volta. Lá em Santa Vitória pensava que não ia mais ter ele. Ele já está se movimentando, apontando o que quer — comemorou a mãe, que pouco antes do embarque para Porto Alegre viu o filho abrir os olhos pela primeira vez desde o acidente, e ouviu dos médicos do Cristo Redentor que o filho terá de ficar internado por pelo menos três semanas até alta.
A concentração da rede de alta complexidade nos arredores de Porto Alegre é um dos problemas a serem enfrentados para encurtar a angústia dos pacientes e suas famílias. No caso de UTIs neonatais, por exemplo, 57% das vagas estão na Região Metropolitana da Capital. O secretário da Saúde, Ciro Simoni, destaca o esforço para descentralizar o número de vagas, mas admite que há percalços no caminho (confira a entrevista ao lado).
Enquanto isso, casos como o de Diego estão longe de ser exceção.
— É uma dificuldade diária encontrar leitos — conta a diretora técnica do Hospital Universitário de Rio Grande, Susi Lauz.
* julio.otero@zerohora.com.br
** leticia.duarte@zerohora.com.br













