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O dilema de uma mãe 15/03/2013 | 06h01

Nutricionista questiona-se se vale a pena insistir em manter o filho autista em colégio regular

Em texto, Silvia Canabarro discute os benefícios e os obstáculos do sistema de inclusão de alunos com deficiência

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Nutricionista questiona-se se vale a pena insistir em manter o filho autista em colégio regular  Jean Schwarz/Agencia RBS
Otávio, nove anos, estuda no 2º ano do Ensino Fundamental, mas tem uma defasagem de dois anos em relação aos colegas da sua faixa etária Foto: Jean Schwarz / Agencia RBS
Um texto publicado em Zero Hora externa a angústia sentida pela mãe de um menino autista, matriculado em escola regular, a cada início de ano letivo.

Em "E a Vida Segue", Silvia Sperling Canabarro discute os benefícios e os obstáculos do sistema de inclusão de alunos com deficiência, assegurado por lei.

"Me pergunto se vale a pena insistir na escola regular, em tanto esforço para enquadrá-lo em um ambiente que muito pouco tem a lhe oferecer do ponto de vista do aprendizado formal", questiona-se a nutricionista, mãe de Otávio, nove anos, no artigo divulgado na edição de 5 de março.

O menino frequenta há seis anos o Colégio Monteiro Lobato, uma instituição privada, em Porto Alegre. Cursa o 2º ano do Ensino Fundamental, com um período de defasagem de dois anos em relação aos demais alunos de sua faixa etária, e tem o acompanhamento exclusivo de uma assistente dentro da sala de aula, além da professora da turma.

A síndrome, caracterizada por dificuldade de comunicação, comprometimento da habilidade de interação social e prática de movimentos ou rituais repetitivos, foi identificada como autismo leve aos dois anos e meio. A família estranhava a demora para a pronúncia das primeiras palavras, o isolamento e o desinteresse diante das pequenas descobertas que costumam encantar as crianças. Hoje, Silvia acredita que o grau de comprometimento se elevou a moderado.

— O problema dele me faz antecipar outros problemas. Tenho que estar atenta a tudo que está acontecendo — conta a nutricionista de 36 anos, que abandonou o trabalho para acompanhar o filho na intensa agenda de consultas com especialistas.

— Ele sabe que é diferente, que não consegue falar, mas é muito afetuoso e acha um jeito de ser aceito. É uma satisfação ver que ele se empenha e gosta da escola — acrescenta.

Otávio ainda não está alfabetizado ou pelo menos não demonstra ser capaz de ler e escrever — é bastante característica da síndrome a aparente desconexão com o ambiente e os interlocutores, o que não permite assegurar que o paciente não esteja absorvendo informações e conhecimento.

O garoto acompanha a rotina dos colegas, mas com algumas adaptações. Quando chora muito, fica excessivamente agitado ou sofre ataques de raiva, que podem resultar em agressões aos demais e também a si próprio, a assistente improvisa outra atividade ou o leva para uma passeio pelo pátio. Nunca chegaram a Silvia, autora do blog Uma Vida em Poucas Palavras, reclamações de outros pais.

— A escola o acolhe com as diferenças e tenta trazê-lo para o nosso mundo. As crianças também fazem o papel de terapeutas, chamando-o para brincar. Temos que perseverar enquanto há benefícios — explica a mãe, cogitando uma possível transferência para uma entidade especializada no atendimento a deficientes.

— Não quero que ele atrapalhe. Se os problemas se tornarem grandes, se esse momento chegar, eu estou tranquila.

Equipe multidisciplinar acompanha o menino

Otávio é atendido por psicóloga, neuropediatra, fonoaudióloga e acompanhante terapêutico (profissional o auxilia na busca de um comportamento social mais adequado), além de frequentar aulas de reforço de conteúdos, natação e musicoterapia.

Uma equipe multidisciplinar é fundamental nesses casos, de acordo com Rosane da Conceição Vargas, professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A doutora em Educação entende a dimensão do desafio para familiares e educadores, mas salienta que é importante persistir.

— Pela legislação, o autista tem que ficar na escola regular. Existem características para as quais a sociedade ainda não está preparada, e não é uma coisa simples para a escola dar conta de todas elas. Jamais daria uma receita porque a singularidade tem que ser respeitada. Essa é a questão: entender a singularidade dentro da diversidade — comenta Rosane.

— A família deve insistir. Dá muito trabalho, mas tem que continuar. Educar um filho exige perseverança — completa.

Claudio Roberto Baptista, professor da Faculdade de Educação e do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), dá um exemplo ilustrativo da sua convicção. Se um estudante sem o diagnóstico de autismo enfrentasse surtos de descontrole e fúria no colégio, o afastamento não seria considerado como possível solução para o caso. Direção, pais e equipe pedagógica trabalhariam para identificar as causas do comportamento e contorná-las.

— Não há sentido em colocar a pergunta "até quando mantê-lo na escola regular?". O lugar dele é a escola regular. Na cabeça de muitos especialistas e professores, essa ideia do "até quando?" é muito frequente. A família e a escola devem continuar investindo — acredita Baptista.

A adaptação de alunos com deficiência

— A família deve observar se a criança está se desenvolvendo. Há sinais de evolução? Apesar do ritmo diferente, o convívio com colegas e professores é bom? Ela gosta da escola?

— A ajuda de um terapeuta pode ser importante para que os pais se sintam amparados e preparados para lidar com o filho. A criança deficiente também precisa de limites.

— Participar de grupos de apoio e conviver com famílias que passam por situações semelhantes permite a troca de experiências e o fortalecimento necessário para enfrentar as dificuldades.

— A trajetória é cansativa, com a alternância de progressos e retrocessos, mas é fundamental não desistir.

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