Brotam lamentos e nostalgia em meio aos farelos que um dia foram casas na Vila Dique, zona norte de Porto Alegre. As quase mil famílias já transferidas para o Conjunto Habitacional Porto Novo, liberando a passagem para a ampliação da pista do Aeroporto Internacional Salgado Filho, deixaram os restos que não queriam ou não podiam carregar.
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O entorno depauperado da Avenida Dique, uma sequência de casebres irregulares e destroços rente à via, convida à infração: durante a noite, caminhões e veículos particulares chegam de outros bairros para descartar entulho.
— Carro particular, carro bom. Tem até Range Rover — detalha o estofador Emanoel Pereira da Silva, 50 anos, um dos fantasmas de destino incerto que não constam do cadastro da prefeitura.
Em outros tempos, quando os clientes e as posses eram bem mais numerosos, Silva restaurou automóveis caros. Há dois anos, vive na divisa da Dique com o Jardim Floresta, bairro regular que também receberá a obra e onde parte dos habitantes foi indenizada pelo governo do Estado. Acomoda-se em uma residência de madeira precária, abandonada pelo antigo dono, e diz que vai sair apenas quando o mandarem embora.
Por enquanto, pensa mais em ajeitar a fachada, embrenhada no lixo, do que no futuro ao relento. Como chegou depois do levantamento conduzido pelo Departamento Municipal de Habitação (Demhab), entre 2005 e 2006, não tem direito a levar a mulher e as três filhas para uma das unidades na Avenida Bernardino Silveira Amorim, no bairro Rubem Berta.
— Tô mal instalado. Quem é que vai me trazer um carrão para arrumar?
Não sobram apenas pedaços de móveis velhos e colchões encardidos nas despedidas. Bichos de estimação também são descartados e vagam até se encostar em outro dono. Valtair Ramos, 45 anos, deixou-se contagiar pelo gosto do filho caçula por cachorros. Quando algum guaipeca o segue pelos acostamentos empoeirados, coloca-o portão adentro.
A morada de seis pessoas agora abriga também cinco cães adultos, sete filhotes, cinco galinhas e dois coelhos.
— Gosto daqui. Está quieto, sossegado, bom de morar — diz o reciclador, levantando a voz para se sobressair ao rugido do avião que decola ali perto. — Me prometeram uma casa, mas até agora não me deram nada — resigna-se Ramos.
Na paisagem irregular cortada pelo asfalto, onde se alternam barracos frágeis e esqueletos de construções total ou parcialmente demolidas, Vera Lúcia Fernandes, 42 anos, faz bons negócios.
Os cinco concorrentes que circundavam o seu Bar e Armazém Suelci não existem mais, o que aumentou o fluxo de compradores. A comerciante, que alega não entender bem a burocracia que envolve o desaparecimento da vila, pôde até ampliar a oferta de produtos, vendendo bolos e salgados.
— Para o comércio está bom, para morar está ruim — avalia Vera. — Dá uma tristeza. Antes olhava para a frente e tinha um vizinho, dava um oi, conversava um pouquinho — completa.
CONTRAPONTOS
O que diz o Departamento Municipal de Habitação (Demhab):
Um total de 922 casas receberam famílias da Vila Dique no Conjunto Habitacional Porto Novo, na Avenida Bernardino Silveira Amorim, bairro Rubem Berta, desde 2009. Ainda precisam ser construídas 554 unidades. A empresa contratada à época enfrentou problemas e desistiu do projeto, interrompendo as transferências.
O órgão aguarda a finalização dos trâmites da nova empresa contratada junto à Caixa Econômica Federal para estabelecer um cronograma. A data prevista para a conclusão das moradias restantes — final de 2013 —, que já tinha um atraso de dois anos, deve ser novamente alterada.
— Vemos com alguma dificuldade a possibilidade de conclusão dentro desse prazo — afirma Everton Braz, diretor-geral do Demhab. O departamento pretende divulgar outro calendário em abril.
O que diz André Carús, diretor-geral do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU):
— Nós fizemos um esforço, mas a população é que transformou aquilo num lixão a céu aberto. Estamos intensificando a operação de coleta do lixo público e trabalhando na conscientização da comunidade. Diariamente, e em alguns locais até cinco vezes por dia, equipes entram com retroescavadeira e caminhões para a coleta nos focos. A coleta domiciliar regular é feita três vezes por semana, e a seletiva, duas vezes.













