Devem ser indiciadas pelo menos 15 pessoas, sendo que metade delas por homicídio doloso eventual — assumiram o risco de matar, ao contribuírem para a falta de segurança na danceteria. Essas poderão enfrentar júri popular. O relatório da Polícia Civil também deverá apontar omissões que contribuíram para tornar insegura a boate, mesmo que essas falhas não tenham sido criminosas. Entre os que serão citados, promotores de Justiça e o próprio prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer.
Num Powerpoint especialmente preparado para o anúncio da conclusão do inquérito, os policiais pretendem demonstrar de forma didática como uma cadeia de atos irresponsáveis abreviaram o futuro de centenas de jovens.
O destaque ficará por conta dos alvarás de funcionamento vencidos — e da falta de rigor na sua fiscalização. Da superlotação de uma casa que tinha, na prática uma só saída. De bretes construídos para evitar a saída de clientes inadimplentes e que funcionaram como barreiras fatais para as vítimas. De extintores inoperantes. De vedações acústicas improvisadas e que exalaram um gás mortífero ao queimar. De séries de multas aplicadas pela ausência de licenciamento, sem que a boate fosse fechada. E, na culminância desse relato, os policiais citarão nomes dos que consideram culpados por essa situação.
O anúncio dos indiciados no inquérito atrairá atenção mundial. E não há exagero na palavra mundo. O incêndio, ocorrido em Santa Maria em 27 de janeiro, é um marco tenebroso na história do planeta. Tanto que, em menos de 24 horas, convergiram para a cidade do centro do Rio Grande do Sul repórteres da Europa, de toda a América e até da China.
Como é usual em casos complicados — e estamos diante da maior investigação da Polícia Civil gaúcha — as dúvidas se acumularam na reta final do inquérito sobre o incêndio. Os cinco delegados que acompanham o caso passaram a manhã, tarde e parte da noite dos três últimos dias numa espécie de conclave, com participação do "papa" de todos eles, o chefe de Polícia Ranolfo Vieira Junior. Sequer telefonemas de familiares atendiam.
Os cinco delegados se dividiram. Luiza Souza tomou depoimentos, Sandro Meinerz tratou do contato permanente com a o Instituto-geral de Perícias, Gabriel Zanella interrogou testemunhas e fez um esboço do relatório, Marcos Vianna fez toda a análise documental (de prefeitura e bombeiros, sobretudo) e Marcelo Arigony, o delegado regional, era o cérebro a pensar os rumos do inquérito.
O trabalho de montagem do quebra-cabeças contou com apoio 10 escrivães e inspetores. Em 50 dias, mais de 30 pessoas fizeram investigações e outras 20 prestaram assistência — entre elas, pessoal do serviço de assessoramento jurídico e da Comunicação Social da Polícia Civil, enviado desde Porto Alegre.
Na quinta-feira, os delegados não viram a luz do sol. O trabalho começou às 8h, passou pela supervisão de Ranolfo e se estendeu por mais de 15 horas. A expectativa era adentrar a madrugada escrevendo. Apesar do assédio da imprensa, os policiais evitaram dar entrevistas e desviaram das câmeras e dos microfones. Chegaram a brincar com os jornalistas, que se revezavam no saguão, mas não escondiam a tensão.
Em seu perfil no Facebook, Arigony pediu "compreensão e cooperação" na reta final. A avisou em sua página nas redes sociais:
"Em razão do número incontável de ligações telefônicas e mensagens que temos recebido, informo que estamos trabalhando incessantemente para concluir o procedimento".
Com olheiras profundas, que o acompanham desde a data do incêndio, Arigony encerrou a mensagem com um apelo:
"Desejem-nos força!"
A pressão sobre a equipe deve atingir voltagem máxima nesta sexta-feira. Os delegados planejam acordar cedo para acertar os últimos detalhes do material e preparar a apresentação à imprensa. Um desfecho aguardado com ansiedade pelos santa-marienses.
Em uma hora, pelo menos 50 pessoas pararam em frente à boate Kiss na tarde de quinta-feira, na Rua dos Andradas, no centro de Santa Maria. Das três pistas daquela rua, uma delas, em frente à danceteria, permanece isolada para peregrinação dos curiosos. Nas outras duas faixas, os motoristas reduzem a velocidade em sinal de respeito e para ver como está o cenário das mortes. Ali aparecem curiosos, pessoas que perderam amigos e até familiares de vítimas.
As mensagens, fixadas em cartazes colados aos tapumes em frente à fachada do prédio, convidam a uma reflexão sobre a vida — e também sobre as responsabilidades dessa que foi a maior tragédia do Rio Grande do Sul.
* humberto.trezzi@zerohora.com.br
** juliana.bublitz@zerohora.com.br
VÍDEO: a homenagem aos filhos de Santa Maria

Clique na imagem e confira o perfil das 241 vítimas:
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, dia 27 de janeiro, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 240 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridos.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:
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