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A dor e o trauma02/02/2013 | 11h13

Vento no litoral

Na pista de dança onde não estava, Marina também morreu

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Vento no litoral Tuane Eggers/Divulgação
Foto: Tuane Eggers / Divulgação
Ismael Caneppele

> Na coluna A Estética do Calor, o escritor Ismael Caneppele aborda a tragédia em um texto literário.


Marina ainda não completou dezessete anos, por isso suas férias não passam do prolongamento dos planos de seus pais. O mar cor de chocolate, a areia dura e fina, o vento quase incessante, a estridência das famílias italianas que poluem o Arroio do Sal... nada disso faz parte dos planos da garota. Como qualquer adolescente saudável, Marina aspira o que seus pais não lhe podem dar. Do lado de dentro do mar, um grupo de surfistas aproveita o final de mais um dia de verão. No ponto mais alto das dunas, Marina não observa a beleza das cores inaugurando a noite gaúcha. Entre uma página e outra do livro que não cansa de reler, ela espera o tempo passar, decidida a não pensar no que aconteceu. As palavras do autor, antes penetrantes de significado, agora não passam de uma sucessão de letras sem sentido algum. A lua cheia que brota de dentro do Atlântico Sul é de uma beleza indescritível e, mesmo assim, Marina não consegue sequer olhar para ela. Seus olhos ainda não choraram, mas, por dentro, tudo já deixou de ser. O domingo anoitece frio. Mais frio do que nunca. Marina está sozinha. Mais sozinha do nunca. Tudo agora é feito de um nunca mais. Suas questões pessoais, seus dramas cotidianos, tudo se torna infinitamente pequeno diante dos fatos. O vento ameaça arrancar seus cabelos no alto da pequena montanha feita de uma areia muito branca e muito fina. Marina agora simplesmente não é. O farol acorda, mas nada se torna mais bonito por causa disso. A garota por quem Marina nutria um sentimento escondido, escondido talvez até mesmo dela própria, deixou de existir na madrugada que passou. Na noite de sábado para domingo, Marina também deixou de ser.

Enquanto morria, Marina não se dava conta. No horário de sua morte, por volta das duas e meia da madrugada, a lua cheia iluminava o bosque à beira da lagoa no interior de Osório. Marina dançava sob essa lua sem saber que, em Santa Maria, uma parte de si sucumbiria à fumaça. Marina pensou em escrever uma mensagem para a garota, mas a dor no peito e a vontade de chorar foram mais fortes. Preferiu esperar o domingo. O sol sempre clareia as ideias. Preferiu dançar. O corpo, quando finge uma alegria que não existe, muitas vezes contamina a alma. Marina sabe que as madrugadas de lua cheia são intensas demais e que o melhor é esperar pelo sol antes de tomar qualquer decisão. Marina escreveu para a garota, mas o seu dedo não apertou o botão de envio. Na mensagem que nunca mandou, que nunca mandará, ela revela o desejo de ficar perto, mesmo contra a vontade dos pais. Enquanto dança ao som de uma banda desconhecida na plateia de um festival no sul do Sul do Brasil, Marina deseja, mais do que nunca, estar perto dela. Eufórica, cogita pegar um ônibus, fugir da praia e voltar para Santa Maria o quanto antes. Depois se acalma. Sabe que existe o tempo para estarem juntas. Uma parte de si morria, sem que ela, ainda, se desse conta. Tudo passa rápido demais quando as coisas podem ser para amanhã.

Quando acordou, o domingo ainda era como um outro qualquer. A casa de praia estava em silêncio. A família talvez estivesse na beira do mar, torrando sem medo da nocividade do sol nessa parte do mundo, nessa hora do dia. Marina ainda estava contaminada pelas bandas desconhecidas que haviam tocado na madrugada passada. Marina ainda não sabia que, naquela madrugada, uma parte dela havia morrido. Ainda na cama, ligou o celular e conectou-se à internet. Escreveria para ela, contando sobre as músicas que havia escutado pela primeira vez. Músicas que ainda escutariam juntas. Marina escreveria sobre a vontade de fugir da praia para ficar perto dela. Aos dezessete anos, tudo é o que será. Mas bastou que a conexão se estabelecesse e que a página abrisse, para que a pequena tela anunciasse a iminência da própria morte. Mensagens de luto contaminavam quase todos os sites por onde ela passava. Todos estavam estarrecidos com a tragédia acontecida na noite passada. Pouco a pouco, Marina foi se dando conta de que, enquanto ela dançava no litoral, uma parte de si deixava de existir no coração do Estado. Sem desviar os olhos do celular, Marina saltou da cama e correu para a sala. A casa estava vazia. Marina correu os dedos, à procura de notícias da garota, mas ainda era cedo demais para saber por onde ela havia estado na noite passada. Ainda era cedo demais para saber o quanto ela mesma havia morrido na noite passada. Vasculhou perfis à procura de notícias, mas a lista de mortos ainda não havia sido divulgada. Escreveu para ela. O silêncio estabelecido entre as duas a impedia de saber por onde ela havia estado. Seria fatalidade demais ela estar na mesma pista de dança onde tantos morreram. Decidida a não esperar pelo pior, abandonou o celular.

Já amputada de si, sentada no muro em frente à casa, Marina tentava compreender como, na mesma noite em que ela dançou traçando planos para estarem juntas, a outra morria asfixiada entre sertanejos universitários. Marina olhou no relógio sem entender exatamente há quanto tempo tudo havia acontecido. Seu estômago não ousaria sentir sequer fome. Há quanto tempo não comia? Há quanto tempo estava morta? Os sapos acordando a madrugada na beira do arroio. A cidade alheia à sua dor. O sal enferrujando as dobradiças. A neblina. O verão, que não cansava de esfriar, agora congelava a sua alma. A realidade, quando carregada de nunca mais, torna-se ainda mais difícil de ser suportada. Na pista de dança onde não estava, extremamente esmagada entre corpos que não a pressionaram, Marina também morreu. Sentada sozinha observando a água suja do pequeno arroio que iria dar no mar, Marina era só o que nunca mais. Uma Ofélia brotaria em seu peito. Talvez cairia da pequena ponte. Talvez sobreviveria à fatalidade da própria morte. Tudo pouco importava agora. A madrugada fria que passava sozinha era só um prenúncio de todas as madrugadas que ainda passaria.

Marina voltou para casa, mesmo sabendo que não dormiria. O quarto, claustrofóbico, a impedia de ficar dentro dele. Sentou no sofá da sala e ligou a televisão. Não lembrava da última vez que havia feito isso, mas, naquela hora, precisava de qualquer coisa que aniquilasse a realidade. Tentando se hipnotizar pelas imagens que nada lhe diziam, sentiu o tempo passar. A avó, talvez sentindo a dor que a neta atravessava, acordou no meio da madrugada e ofereceu uma espécie de colo à cada vez mais pequena Marina. Sem saber por onde consolar a dor quando aniquila a juventude, a senhora atribuiu a Deus a sorte de Marina. “Se todos os que sobreviveram são os escolhidos por Deus, o que sobra para os que morreram?”, pergunta a neta. A avó, não mais sabendo como continuar aquele estranho diálogo, bebe um copo d’água e volta para o quarto. Às vezes, as famílias, ao separar dois corpos que se amam, abrem precedente para a existência do sagrado. “Tudo está exposto demais”, reclama Marina, buscando por um canal que não a estupre, de tempos em tempos, com notícias sobre a própria morte. A vida, quando aniquilada na sua iminência, deixa sempre um rastro amargo de nunca mais.

Durante os meses de janeiro e fevereiro, o escritor Ismael Caneppele, que volta a morar em Porto Alegre em pleno verão, publica no Cultura a coluna A estética do calor. Ele é autor de Os Famosos e os Duendes da Morte.

 

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