Depois de uma semana de luto, a universidade retoma as aulas na segunda-feira de manhã sob o impacto da perda de 115 de seus alunos, praticamente metade dos 237 mortos na tragédia da boate Kiss. Em algumas disciplinas, o número de ausentes na sala chegará a 14.
Professores e integrantes da direção se confessam desnorteados perante o reinício. Na semana passada, dezenas deles acorreram a dois encontros com psicólogos em busca de respostas. Eles buscavam orientação sobre como voltar à rotina de aulas diante de turmas que foram dizimadas.
— Não dá para entrar na sala de aula e retomar as atividades. Precisa ter algum rito para acolher os alunos e marcar um recomeço — defende a professora Ava Paula Rovedder.
Essa função pode ser preenchida por um culto ecumênico programado para as 9h, no campus. Será o primeiro encontro da comunidade universitária. Na sequência, alunos, professores e servidores seguirão para os centros de ensino. Depois disso, será o momento de voltar aos laboratórios e às salas de aula.
— O que eu vou fazer é abraçar os meus alunos, um por um — anuncia o professor Ricardo Diniz Dalmolin, que receberá hoje uma turma de Agronomia em que oito alunos pereceram.
O reitor da UFSM, Felipe Müller, diz que o semestre será retomado sem data para terminar. Cada curso decidirá como proceder. Antes da tragédia, o fim do segundo semestre de 2012, em função da greve do ano passado, estava previsto para ocorrer até 2 de março. Segundo Müller, a orientação é viver um dia de cada vez e respeitar o tempo de cada curso.
— Temos de enfrentar juntos essa tragédia, respeitando o tempo de cada um — diz Müller.
Colegas mortos serão lembrados
A homenagem aos mortos também estará na ordem do dia. Um grupo de arquitetos já começa a trabalhar no projeto para um memorial permanente. Alunos discutem formas de lembrar os colegas que se foram. A estudante de Agronomia Virgínia Pillon, 23 anos, que perdeu oito colegas do terceiro semestre, vai propor que no quadro da turma que, por tradição, ornará um dos corredores da faculdade depois da formatura, estejam também os nomes e as fotos dos que pereceram.
— Cada curso vai fazer um momento especial com os alunos, nos quais os professores vão acolhê-los. Vai haver uma conversa, e todos terão oportunidade para desabafar. Depois, em conjunto, professores e turmas vão construir um caminho para o retorno às atividades normais. A recomendação é que não haja provas nos primeiros dias, porque mais do que conteúdos, é importante saber que os alunos vão ficar bem — afirma o coordenador do Centro de Ciência Rurais, Thomé Lovato.
As atenção estarão voltadas nesta manhã principalmente para o Centro de Ciências Rurais, que perdeu 65 alunos de cinco cursos, sem contar os feridos. Os estudantes programaram uma homenagem aos colegas perdidos hoje, às 13h, no estacionamento do prédio 43. A estudante de Zootecnia Gabrielle Messerschimidt Schuster, 26 anos, acredita que a união dos que ficaram vai amenizar a dor pela perda dos que partiram. A jovem, que perdeu um colega de turma — José Manuel Rosa da Cruz, 18 anos, que estava na festa com a irmã Mirella, também falecida — acredita que os primeiros dias serão os mais difíceis.
— Não vamos ter condições de estar em aula e pensar em provas, olhando para aquela cadeira vazia. Mas a vida segue. Vamos nos apoiar uns nos outros e tocar adiante fazendo aquilo que eles gostariam que fizéssemos — diz Gabrielle, destacando que José Manuel adorava cantar.
CURSOS EM LUTO
Dos 237 mortos da boate Kiss, 115 eram estudantes da UFSM. As unidades com mais vítimas:
26 — Agronomia
16 — Tecnologia de Alimentos
15 — Medicina Veterinária
5 — Zootecnia
4 — Terapia Ocupacional
3 — Ciências Econômicas
2 — Odontologia
2 — Mestrado em Bioquímica Toxicológica
2 — Meteorologia
2 — Ciência da Computação
2 — Engenharia Civil
2 — Engenharia de Controle e Automação
2— Tecnologia em Agronegócios (Udesm)

Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 237 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:
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A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:
A festa
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.
Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.









