Utilizadas logo depois do incêndio em Santa Maria como canal de lamentos e homenagens, as redes sociais se firmam agora como palco de um embate digital entre os envolvidos na tragédia, simpatizantes de cada lado e interessados no desfecho do caso.
A tentativa de somar pontos com a opinião pública leva à publicação de manifestos, fotos, vídeos e comentários ora absolvendo, ora condenando autoridades, os donos da boate e músicos do grupo Gurizada Fandangueira.
A guerra de versões é travada por meio de ferramentas como o Twitter e, principalmente, perfis do Facebook. Na página da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava no momento em que se iniciou o incêndio, sobram acusações aos proprietários da Kiss. Em fotos compartilhadas, por exemplo, são mostradas cenas do uso de fogo na boate por parte de funcionários a fim de desmontar a tese de que os donos não sabiam da utilização recreativa das chamas.
— Então era proibido o uso de fogos no interior da Kiss? Estas foi uma das fotos postadas nas redes sociais do que acontecia nas festas — diz o texto que acompanha uma imagem com um sinalizador soltando labaredas.
A página Força Kiko, destinada a apoiar um dos proprietários da boate incendiada, Elissandro Spohr, recebeu 529 "curtidas" até ontem à tarde. Um depoimento atribuído à mãe de uma vítima afirma que Kiko não teria tido culpa no incêndio. Em sua página pessoal, o advogado de Kiko, Jader Marques, critica a imprensa, governantes e o comando dos bombeiros enquanto procura destacar o sofrimento pessoal do seu cliente.
— As redes sociais costumam ser um veículo de expressão, mas podem servir também como espaço para debate e tentativa de convencimento, ainda que não necessariamente isso vá fazer com que alguém mude de opinião — avalia a professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e pesquisadora na área de redes sociais Raquel Recuero.
Segundo Raquel, o choque de versões pode levar a discussões mais ácidas em ferramentas como o Twitter e o Facebook. Ela observa que, no Brasil, há uma maior propensão a debates mais agressivos do que em outros países por razões ainda e estudo. Na página Força Kiko, por exemplo, um usuário publicou a seguinte mensagem:
— Força não, forca nele. Tem de apodrecer na cadeia.
Outros, porém, fazem questão de apontar que a principal responsabilidade pela tragédia é da falta de fiscalização das autoridades.
Polícia pretende ouvir autor
de vídeo com denúncias
Um vídeo de sete minutos publicado sexta-feira no YouTube, e que até ontem já somava mais de 88 mil exibições, levou a Polícia Civil a informar que pretende ouvir o autor de denúncias de irregularidades na fiscalização de estabelecimentos no município. A publicação do vídeo se tornou um dos assuntos mais comentados na cidade.
Em seu monólogo, o homem identificado como João Batista Veras critica autoridades e os donos da boate e fala sobre a existência de um esquema para liberação de alvarás na cidade. Em entrevista a ZH, afirmou que não tem provas das denúncias.
— Não preciso de provas. O que falo é do conhecimento da maioria dos moradores de Santa Maria — declarou.
Veras disse ainda que pretende fazer uma versão em inglês do vídeo para que possa ser assistido por pessoas de outros países.
Clique na imagem e confira o perfil das 238 vítimas
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, dia 27 de ferereiro, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 238 jovens morreram e mais de 100 ficaram feridos.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:
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