Ela ficou conhecida como a guria do freezer e virou símbolo de recuperação dos feridos no incêndio da boate Kiss.
Depois da sair do coma, desenhou um coração com as mãos para acalmar os milhares de amigos que, sem saber, arrecadou no Facebook. Ingrid Preigschadt Goldani, 20 anos, estudante do quinto semestre de Enfermagem da Faculdade Integrada de Santa Maria (Fisma) e funcionária da boate, não sabia que um freezer com cerca de dois metros de altura a salvaria, mas apostou nele para respirar por duas vezes e sair correndo num breu rumo à porta de saída.
Depois de ficar internada por 11 dias no Hospital Conceição, em Porto Alegre, Ingrid, também conhecida como Gringa, voltou na sexta-feira para a casa no bairro Camobi, em Santa Maria. Em companhia dos animais de estimação e das amigas, ela recebeu a reportagem para contar como se salvou. Confira a entrevista:
Zero Hora - Há quanto tempo você trabalhava na Kiss?
Ingrid Preigschadt Goldani - Trabalhava na Kiss fazia um mês e meio e na Cervejaria Floriano. De terça a sábado, começava na Floriano, às 17h30min, ia até perto de 23h30min e, nas quintas, sábados e algumas sextas ia direto trabalhar na Kiss.
ZH - O que você lembra do momento do incêndio?
Ingrid - Tudo. Estava no bar da área VIP, de frente para o palco, em cima de uma caixa de cerveja para ter uma visão mais ampla de toda boate. Estava olhando o artefato que estava na mão do vocalista da banda. Olhando, era bonito, era divertido, porque com a música fazia todo o clima da festa. Foi tudo muito rápido, vi tudo acontecer e travei, foi isso que me segurou dentro da boate. Vi quando começou a pegar fogo, vi a tentativa de apagar com água, vi a preocupação do cantor com o que aconteceu, vi o extintor não funcionar. Quando o cantor parou tudo e fez sinal para o pessoal sair da boate, começou a confusão. Quando me toquei que realmente estava acontecendo alguma coisa grave, já tinha começado a sair fumaça. Lembrei de duas meninas que trabalhavam em um caixa próximo do bar e me abaixei para chamá-las. No que me levantei, meu celular caiu e foi automático abaixar para pegar e colocar de volta no meu bolso. Quando levantei a fumaça me engoliu. Dei duas respiradas com a fumaça e tonteei, desceu queimando, tudo ardia e não dava para ver mais nada. Caí para o lado e bati com a mão no freezer, e o abri, coloquei a cabeça para dentro, respirei duas vezes, tempo suficiente para a fumaça invadir o freezer também. Puxei a camiseta da boate, coloquei na boca e no nariz, fechei o olho e pensei "agora seja o que Deus quiser". Pulei o bar, fiz a volta na parede e fui com uma mão na frente. Encostei nos ombros de um menino e o segui para sair. Quando percebi a diferença de claridade, abri o olho e caí em uma multidão que estava se pisoteando na porta, do lado de fora.
ZH - Como conseguiu se levantar?
Ingrid - Estava de barriga para baixo, com as pernas tortas e tinha uns cinco rapazes de pé puxando o pessoal para tentar salvar o máximo possível. Um deles me pegou pela mão e puxou, mas como já tinha caído muita gente em cima de mim, estava difícil de me tirar. Ele foi me largar e peguei a mão dele e puxei de volta, olhei e disse "pelo amor de Deus, me tira daqui". Daí ele me agarrou pelas duas mãos, deu umas quatro puxadas e conseguiu me arrancar. Achei que já tivesse passado pelo pior, mas quando saí daquilo e virei para o que eu tinha acabado de sair, me desesperei. Era uma cena de um filme de guerra, aquela fumaça preta saindo, gente gritando, um mar de gente na porta, que não tinha mais força para gritar, para pedir socorro.
ZH - Sabe por que recorreu ao freezer?
Ingrid - Na verdade nem sei de onde que surgiu a ideia. Bati a mão nele, me deu um estalo e pensei "olha o freezer", provavelmente era o único lugar que podia ter ar naquele momento.
ZH - Você foi para o hospital logo que saiu da boate?
Ingrid - Não. Teimei e não quis ir para o hospital. Em função do pessoal da boate que eu conhecia, não quis sair de lá enquanto não soubesse de todo mundo. Fiquei cerca de quatro horas na frente da boate depois de ter saído. Por volta das 7h, tive o primeiro atendimento na Unimed. Vim para a casa de uma tia, porque meus pais estavam em Capão da Canoa de férias. Fiquei até as 14h, quando meus pais chegaram da viagem e vim para casa, onde fiquei até umas 18h. Tinha acabado de deitar, fazia mais de 24 horas que não dormia, e minha prima mandou para a minha mãe uma notícia do site do Diário de Santa Maria com um médico pedindo para as pessoas irem para os hospitais, porque o resultado da fumaça podia aparecer depois. A mãe me acordou e disse "mana, vamos te levar para o hospital agora", e fomos para o Husm.
ZH - Sentiu mal estar?
Ingrid - Estava com tosse, a garganta bem seca e com dificuldade para respirar. Quando respirava, o ar já descia ardendo.
ZH - Chegou no Husm e já foi levada para a Capital?
Ingrid - No Husm, me levaram para a enfermaria e me botaram em uma cadeira. Como tinha tomado um calmante por causa do nervosismo, estava ficando sonolenta e ia ficar mais difícil. Os médicos começaram a se preocupar, colocaram soro e me levaram para a maca. Acho que não fiquei nem 10 minutos acordada no Husm. Fizeram um exame em mim para verificar se a minha garganta havia sido danificada e constataram que estava queimada. Só lembro que disseram que iam ter de me entubar e entrei em pânico. Minha mãe me entregou na mão deles, disse que podiam fazer o que precisasse para a minha recuperação. Só acordei dois dias depois na UTI do Hospital Conceição, em Porto Alegre. Meu quadro era de pneumonia química.
ZH - Você tinha amigos que estavam na boate naquele sábado?
Ingrid - Tinha, inclusive uma das minhas melhores amigas estava lá comemorando o aniversário dela, meu irmão mais velho, minha cunhada e um colega de faculdade também estavam lá dentro. Tirando meu colega de faculdade, todos eles se salvaram, graças a Deus.
ZH - Já tinha visto um show da Gurizada Fandangueira? Eles usavam os fogos de artifício?
Ingrid - Já, várias vezes. Trabalhando na Kiss, vi uma ou duas vezes o show deles. Nunca tinha visto eles fazendo show com aquilo (o artefato chamado sputnik). O máximo que tinha visto eram aqueles fogos que saem do chão, com nem 50 centímetros de altura e que cerca de 30 segundos depois se apagam. Este (da madrugada da tragédia) estava preso na luva do cantor e era um fogo mais alto, que chamou a atenção de muita gente que estava lá.
ZH - Em algum momento pensou no que a combinação fogos de artifício e espuma podia resultar?
Ingrid - Nem sabia dessa espuma, acho que se perguntar para o pessoal da boate, quase ninguém sabia.
ZH - Pretende continuar estudando e trabalhando?
Ingrid - A Enfermagem não vou largar, mas continuar neste tipo de trabalho (em boate) não dá mais depois dessa.













