Já se fazem distantes os dias em que o guri, agarrado à mão da mãe, assistia às escolas passarem pela estreita Borges de Medeiros. O tempo correu, o menino completou 55 anos e o samba foi desfilar longe do centro da Capital. Das coloridas páginas do Carnaval e do encantado olhar daquele garoto, cinco décadas depois, apenas o brilho de que são feitos continua o mesmo.
Desde que bate, o coração é azul e branco. Mas foi somente em agosto de 2012 que Cleomar Rosa assumiu a presidência da escola Bambas da Orgia – em uma eleição atrasada e conturbada. Pela frente, já não havia mais um ano novo em folha para planejar a passagem pela avenida com a pompa merecida. Tinha início o que mais parecia ser um desfile contra o tempo.
Desafio aceito e, em poucos meses, carnavalescos e foliões mostraram de que é feita a águia, ave símbolo da escola. E quando os cerca de 1,5 mil bambistas entrarem no Porto Seco com o tema “Majestosa, altaneira, minha Águia, minha paixão”, às 5h deste sábado, o que estará refletido na emoção de cada alegoria será uma combinação de renovação e garra.
Se hoje falta olho para tanto brilho, é porque o presidente viu, em um piscar, uma escola novamente unida – como uma família que se redescobre forte e capaz. A parceria em casa, agora, também vai se exibir na passarela. É a mulher, Ana Luíza, quem comanda todo o abre-alas. Na bateria está o filho mais velho, Douglas, 30 anos. E o netinho de quatro anos teve de aprender a dividir o vô com a segunda grande paixão dele – a primeira é o próprio Tainã.
Desses longos dias que começam às 7h, atrás de uma escrivaninha no Grupo Hospitalar Conceição, e vão ter fim somente por volta das 4h, já no barracão, até resta um certo cansaço. Mas o que vibra forte no corpo esguio do presidente é puro orgulho. E um certo medo.
Emoção vai marcar o momento do desfile
O guri de outrora já não vai mais poder segurar a mão da mãe. Terá de encarar sem amparo os versos que também cantam a sua vida. E terá de lidar com eles, desta vez, com as preocupações que o tempo lhe deixou.
— Tenho pressão alta e já não sei como meu coração irá se portar diante de tanta emoção. Vai ter de cair no samba — sugere Cleomar.









