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Luto02/02/2013 | 11h31

Por um memorial da tragédia

Só se supera um trauma dessas proporções evitando o esquecimento

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Por um memorial da tragédia Lauro Alves/Agencia RBS
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS
Marcelo Canellas
Nunca mais seremos os mesmos. Em 2100, quando alguém fizer um balanço das grandes tragédias do século 21, estaremos lá, assinalados no centro do Rio Grande, como a cicatriz perpétua de um contrassenso. Um único pai, uma única mãe chorando a morte de um jovem já é um acontecimento absurdo. Todos queremos que nossos filhos, um dia, nos sepultem. Mas quando a inversão do ciclo da vida se dá, de uma só vez, para mais de duas centenas de famílias – feito um tsunami de fumaça tóxica e negligência –, a dor dos outros deixa de ser privada e solitária para ser a dor da cidade inteira. Além da comoção óbvia com o sofrimento alheio, da solidariedade esperada diante do horror, há o necessário senso moral de assumirmos uma tarefa coletiva de reconstrução.

Temos dois desdobramentos possíveis diante da tragédia que nos solapa. Podemos sucumbir e, resignadamente, vestir a mortalha que nos engessa como cidade triste, calada e submissa. Mas também podemos reagir, confortar as famílias enlutadas, investigar e punir os culpados, e fortalecer nossa autoestima turbinando aquilo que já está no DNA santa-mariense: a nossa imensa capacidade de refletir, questionar e intervir criativamente no nosso cotidiano. O que somos, senão uma cidade vocacionada para o debate, para o cotejo de ideias, para a diversidade, para a liberdade de pensamento estimulada pelo ambiente universitário? Temos um dever ético, assumimos uma hipoteca moral com mais de 200 jovens que trabalhavam ou estudavam em Santa Maria para abrir a porta do futuro. O que é preciso para isso? Lembrar, lembrar e lembrar.

Só se supera um trauma dessas proporções evitando o esquecimento. Todas as nações e grandes cidades que vivenciaram guerras, catástrofes e massacres fortaleceram sua identidade com a memória dos erros do passado a iluminar o caminho do amanhã. Temos de fazer o mesmo. O prefeito Cezar Schirmer tomou a decisão certa ao anunciar a construção de um memorial da tragédia. Não sei de que maneira ele pretende fazer isso, mas, em minha opinião, o que tem de ser feito é a desapropriação do terreno da boate Kiss, a consequente demolição do prédio e a abertura de um concurso público convocando artistas e arquitetos a propor projetos de um memorial, um monumento para homenagear os jovens mortos, com o nome de cada um deles de alguma forma perenizada, e que nos leve a pensar em nós, no zelo que um país tem de ter para com a sua juventude. Jamais esquecer uma tragédia é a única forma de evitar que ela se repita.

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