Nunca mais seremos os mesmos. Em 2100, quando alguém fizer um balanço das grandes tragédias do século 21, estaremos lá, assinalados no centro do Rio Grande, como a cicatriz perpétua de um contrassenso. Um único pai, uma única mãe chorando a morte de um jovem já é um acontecimento absurdo. Todos queremos que nossos filhos, um dia, nos sepultem. Mas quando a inversão do ciclo da vida se dá, de uma só vez, para mais de duas centenas de famílias – feito um tsunami de fumaça tóxica e negligência –, a dor dos outros deixa de ser privada e solitária para ser a dor da cidade inteira. Além da comoção óbvia com o sofrimento alheio, da solidariedade esperada diante do horror, há o necessário senso moral de assumirmos uma tarefa coletiva de reconstrução.
Temos dois desdobramentos possíveis diante da tragédia que nos solapa. Podemos sucumbir e, resignadamente, vestir a mortalha que nos engessa como cidade triste, calada e submissa. Mas também podemos reagir, confortar as famílias enlutadas, investigar e punir os culpados, e fortalecer nossa autoestima turbinando aquilo que já está no DNA santa-mariense: a nossa imensa capacidade de refletir, questionar e intervir criativamente no nosso cotidiano. O que somos, senão uma cidade vocacionada para o debate, para o cotejo de ideias, para a diversidade, para a liberdade de pensamento estimulada pelo ambiente universitário? Temos um dever ético, assumimos uma hipoteca moral com mais de 200 jovens que trabalhavam ou estudavam em Santa Maria para abrir a porta do futuro. O que é preciso para isso? Lembrar, lembrar e lembrar.
Só se supera um trauma dessas proporções evitando o esquecimento. Todas as nações e grandes cidades que vivenciaram guerras, catástrofes e massacres fortaleceram sua identidade com a memória dos erros do passado a iluminar o caminho do amanhã. Temos de fazer o mesmo. O prefeito Cezar Schirmer tomou a decisão certa ao anunciar a construção de um memorial da tragédia. Não sei de que maneira ele pretende fazer isso, mas, em minha opinião, o que tem de ser feito é a desapropriação do terreno da boate Kiss, a consequente demolição do prédio e a abertura de um concurso público convocando artistas e arquitetos a propor projetos de um memorial, um monumento para homenagear os jovens mortos, com o nome de cada um deles de alguma forma perenizada, e que nos leve a pensar em nós, no zelo que um país tem de ter para com a sua juventude. Jamais esquecer uma tragédia é a única forma de evitar que ela se repita.













