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Quebra-cabeças23/02/2013 | 23h17

Polícia aplica nova metodologia para sistematizar depoimentos de testemunhas da tragédia em Santa Maria

Inquérito deve atingir a marca das 5 mil páginas

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Polícia aplica nova metodologia para sistematizar depoimentos de testemunhas da tragédia em Santa Maria Eduardo Ramos/Especial
Delegada há dois anos, Luiza desenvolveu método que facilita a sistematização dos dados do inquérito Foto: Eduardo Ramos / Especial
Francisco Amorim* e Juliana Bublitz**
Uma nova metodologia está sendo aplicada pela Polícia Civil gaúcha para sistematizar os mais de 300 depoimentos já tomados de testemunhas da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria.

Considerada fundamental para a conclusão do inquérito, a estratégia é resultado da iniciativa de uma delegada que assumiu a missão de ouvir vítimas e suspeitos e garantir que nenhuma informação importante se perca em meio a pilhas e pilhas de papéis timbrados.

— Decidi que tinha de ajudar de alguma maneira, então liguei para o delegado regional (Marcelo Arigony, que comanda as investigações) e disse: "Chefe, para onde eu vou?" — relata Luiza Sousa, especializada em Ciências Criminais.

Enquanto os colegas se desdobravam para agilizar a identificação dos mortos, a delegada foi até a 1ª DP e começou a atuar nos bastidores, tomando os primeiros depoimentos. Com apenas dois anos de carreira, mas considerada uma das melhores de sua turma, ela sabia que a dimensão do desastre exigiria a adoção de um plano de combate. Desde então, passaram por ela de 20 a 30 testemunhas todos os dias.

O principal desafio foi definir a técnica adequada para sistematizar as falas e domar o inquérito, que deve atingir a marca das 5 mil páginas. Até sexta-feira, o calhamaço já passava das 2 mil folhas distribuídas em 10 volumes, com mais de 300 pessoas ouvidas. Nos próximos dias, esse número pode chegar a 500.

Defensoria entrará com ação coletiva

A técnica adotada inclui a divisão das testemunhas em quatro grupos, conforme o envolvimento na tragédia — sobreviventes, bombeiros, fiscais da prefeitura e personagens-chave, como os donos da boate e os músicos da banda. Para cada categoria, uma lista fixa de perguntas. O material está sendo tabulado, permitindo aos policiais saberem exatamente quantas pessoas viram o início do fogo, onde estavam e como foi a saída.

A estratégia permite a criação de um banco de dados que embasará a redação do relatório final, onde serão apontadas as responsabilidades. Entre outros fatores, ajudará a respaldar as conclusões dos delegados, que estão prestes a encerrar o inquérito.

— Esse organograma é imprescindível — avalia o delegado Sandro Meinerz.

Enquanto as investigações avançam, os familiares das vítimas se mobilizam. Na manhã deste sábado, a associação criada pelo grupo voltou a se reunir. A entidade planeja encaminhar junto à Defensoria Pública uma ação coletiva de reparação de danos e indenização.

O defensor público João Otávio Carmona Paz afirmou que ainda não pode estimar os valores de indenização, mas acredita que a ação deve responsabilizar entes públicos como Estado e prefeitura, além dos proprietários. Entre os réus ainda podem estar fabricantes de espuma. A previsão é de que em duas semanas a Defensoria ingresse em juízo.

* francisco.amorim@zerohora.com.br
** juliana.bublitz@zerohora.com.br

Clique na imagem e confira o perfil das 239 vítimas:

 

Como aconteceu

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, dia 27 de janeiro, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 239 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridos.

A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:


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