Quando a multidão de gaúchos que todo ano viaja para aproveitar o Carnaval no litoral catarinense chegar ao Estado vizinho, encontrará um cenário diferente daquele dos últimos verões.
Mais policiais nas ruas e um indisfarçável clima de tensão estarão misturados aos festejos próprios desta época do ano, devido aos ataques perpetrados por criminosos ligados ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC) desde 30 de janeiro.
A preocupação é geográfica. Parte dos 61 atentados cometidos pelos bandidos em retaliação aos maus-tratos a presidiários em Santa Catarina ocorreu em destinos muito procurados pelos turistas no norte da Ilha de Florianópolis, como Ingleses e Canasvieiras, além de cidades como Balneário Camboriú. Para estancar a ação do PGC, coordenada de dentro de presídios daquele Estado, a Polícia Militar (PM) catarinense reforçou as tropas nas regiões mais afetadas. Os ataques pararam em Florianópolis por quatro dias, até um ônibus ser incendiado na terça-feira no Saco dos Limões, perto do centro da Capital, reativando o receio na população local.
Ontem, Blumenau virou alvo dos bandidos durante a tarde, quando um ônibus foi incendiado por dois homens que estavam em uma motocicleta. No dia, tinham ocorrido seis ataques, até aquele momento. O subcomandante-geral da PM, coronel Valdemir Cabral, salienta o número de ontem em comparação com o de 1º de fevereiro, quando houve 15 ocorrências, para mostrar que a ousadia dos criminosos enfraquecera. O oficial conclamou os gaúchos a procurarem os destinos catarinenses:
— Esses atentados estão ligados aos problemas do sistema prisional, os marginais não querem trazer a população contra eles. Não houve ataques a turistas, carros de turistas, nada, porque eles são contra nós, a polícia e o governo. O turista pode vir para Florianópolis ou qualquer outra cidade catarinense. Se houvesse algum risco, diríamos.
Para garantir a segurança dos visitantes, a PM chamou policiais que estavam de folga e em férias para reforçar a tropa. Além da Operação Veraneio, abriu a Operação Carnaval, focada nas festas.
andre.mags@zerohora.com.br
Outra retranca
BM considera situação sob controle
O subcomandante da Brigada Militar gaúcha, coronel Silanus Mello, avaliou ontem que a situação está sob controle. Um motivo para confiar que não haverá maiores problemas está ligado aos costumes dos turistas do Rio Grande do Sul:
— Normalmente, o gaúcho não usa o transporte coletivo, que é um dos alvos dos ataques. O gaúcho utiliza o seu carro para viajar até Santa Catarina e se deslocar por lá.
Ônibus têm se deslocado em Florianópolis sob escolta policial a partir das 20h. Os veículos circulam até as 23h, quando voltam para as garagens. Diariamente, a situação é avaliada. Atualmente, cerca de 200 escoltas são realizadas por dia.
Mello também entende que a a revolta dos presos catarinenses não deverá chegar ao Rio Grande do Sul. Para ele, a instabilidade no Estado vizinho se deve ao tratamento dado pelas autoridades catarinenses do sistema prisional. Ainda assim, a BM mantém contato com a PM catarinense e faz o monitoramento da crise.
Um estopim da onda de violência teria sido a tortura a presos cometida por agentes penitenciários no Presídio Regional de Joinville em 18 de janeiro. Em novembro, uma revolta semelhante, com ataques a ônibus e prédios governamentais, tomou conta de Santa Catarina pelo mesmo motivo: maus-tratos a detentos.
Turista, siga as dicas
Confira medidas de segurança que devem ser seguidas pelos turistas:
— Conheça as rotas para evitar se perder
— Pule Carnaval em locais com policiamento
— Evite os lugares impróprios e os horários de pouco movimento
— Hospede-se em locais oficiais e conhecidos
— Alugue veículos apenas de agências
— Se optar por buscar diversão longe do local onde está hospedado e tiver que sair de carro, a atenção deve ser redobrada
— Trafegue sempre com os vidros fechados, as portas travadas e o cinto de segurança ajustado. Crianças no banco
de trás e as pequenas na cadeirinha
— O veículo deve estar abastecido, em boas condições de manutenção e com os pneus calibrados
— Se for necessário usar o transporte coletivo, é melhor ficar atento a outras alternativas. Para não ficar a pé na volta, leve o número de táxi local, peça o serviço de táxi executivo ou use vans disponibilizadas por alguns hotéis. Pode haver demora no atendimento por causa da demanda
Fonte: Polícia Militar de Santa Catarina
O aparato de segurança
� As polícias Militar e Rodoviária estarão com contingente de aproximadamente 1 mil soldados para trabalhar nos locais de festas, nas barreiras e nos reforços dos quartéis. Serão instaladas também 20 plataformas elevadas e haverá helicóptero para fiscalização noturna, além de postos móveis
� A Polícia Civil estará com reforço de pessoal, com cerca de 500 agentes, para trabalhar nas delegacias, nos postos da rodoviária e na delegacia do aeroporto de Florianópolis
Informações
� Polícia Militar: pode fornecer dados sobre hospedagem, transporte e regiões
� Hotéis: poderão orientar os clientes sobre como proceder
Polícia Civil - 181
Polícia Militar - 190
Número alternativo da PM - 0800-481717
Histórico dos ataques
— Em novembro de ano passado, foram registrados 68 ataques em seis dias em Santa Catarina, como represália a maus-tratos em cadeias catarinenses.
— Orquestrados por líderes do Primeiro Grupo Catarinense (PGC), presos em penitenciárias, os ataques afetaram 16 municípios. Ao final, 61 suspeitos foram detidos, entre eles, 14 adolescentes, e três foram mortos em troca de tiros com a polícia.
— Este ano, os ataques começaram às 22h de 30 de janeiro em Balneário Camboriú, contra um ônibus. Logo após, em Itajaí, uma viatura foi parcialmente danificada por um coquetel molotov e um bar, atingido por chamas. As ações se estenderam no dia seguinte para a Grande Florianópolis, retomando o medo vivido pelos catarinenses em novembro do ano passado.
— A polícia sabia que os atentados ocorreriam, mas não conseguiu antecipar o dia.
— Os ataques teriam sido motivados pela tortura de detentos no Presídio de Joinville, ocorrida em 18 de janeiro.
— A PM determinou o retorno à tropa de policiais de folga ou em férias e deu início a uma operação para controlar a situação.
— Por causa da tortura em Joinville, 14 agentes foram afastados de suas funções.
— Os líderes do PGC deverão ser transferidos para presídios federais, onde permanecerão sob regras rígidas de segurança.













