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Tragédia em Santa Maria02/02/2013 | 06h15

Para esclarecer incêndio, IGP vai reproduzir sequencia de eventos em laboratório

Gás liberado pela queima da espuma de isolamento acústico é um dos principais objetos de investigação

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Para esclarecer incêndio, IGP vai reproduzir sequencia de eventos em laboratório Mauro Vieira/Agencia RBS
Em 1min16seg, o revestimento é completamente incendiado Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS
A sequência de acontecimentos que originou a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, será reproduzida em laboratório para esclarecer como a casa noturna se transformou em uma espécie de câmara letal de gás. O Instituto-geral de Perícias quer saber qual foi a velocidade de propagação do fogo e o nível de liberação de elementos tóxicos desencadeados com a queima da espuma acústica apontada pela Polícia Civil como a principal causa do desastre.

Feito de poliuretano, o material de baixa qualidade presente no teto da Kiss é considerado altamente inflamável e teria liberado gás cianídrico em contato com o fogo — o mesmo utilizado pelos nazistas para exterminar judeus na II Guerra Mundial. A disseminação desse produto, 67 anos após o fim do conflito, agora deixa em situação de desespero pais, familiares e amigos de 236 mortos e 119 feridos em hospitais, que padecem pela inalação da substância incolor e inodora, mas mortífera.

A espuma, segundo o delegado responsável pelas investigações, Marcelo Arigony, potencializou o que poderia ter sido apenas um incidente:

— Isto foi a causa da morte. Onde não tinha espuma, quase não queimou.

Peritos coletaram retalhos do revestimento, conforme o delegado Sandro Meinerz, integrante da equipe de Arigony, a fim de submetê-los às mesmas condições que teriam deflagrado o drama.

Para isso, providenciaram ainda o mesmo tipo de artefato pirotécnico indicado como a origem do fogo — chamado de sputnik. O produto, aceso, será erguido a uma distância similar à que teria ficado no momento em que as chamas começaram a se propagar.

A partir desse momento, os técnicos vão cronometrar o ritmo de expansão das labaredas e medir a quantidade e o tipo de gás tóxico decorrente da queima. O resultado vai embasar com rigor científico a tese dos policiais de que o poliuretano empregado no sistema de tratamento acústico da Kiss é peça-chave para explicar o elevado número de vítimas.

A sucessão de falhas que levou ao desastre inclui outros fatores sob investigação como a superlotação no local, deficiências na sinalização e nas saídas de emergência.

Zero Hora testou espuma similar à usada na Kiss:



Vídeos de celulares serão analisados

A reprodução vai determinar também o nível de resistência da espuma ao fogo. Revestimentos que contam com um aditivo destinado a retardar a propagação, mais caros, são mais seguros do que outros sem esse tipo de proteção. O engenheiro civil Gilmar Roth, especializado em projetos acústicos, considera, no entanto, que nenhum deles é completamente confiável.

— Não recomendo esse tipo de produto. Não é 100% seguro porque mesmo aquelas espumas chamadas antichama desprendem alguma quantidade de gás tóxico em contato com o fogo — sustenta.

Roth faz ainda um outro alerta:

— Se um tipo de adesivo não recomendado pelo fabricante for utilizado, o risco de incêndio se torna maior ainda.

O preço do metro quadrado dos melhores modelos de poliuretano com 50 milímetros de espessura e adesivo resistente ao fogo costuma chegar a até R$ 75, aproximadamente. Materiais sem as mesmas garantias podem ter custo a partir de R$ 45.

Integrante da comissão encarregada de periciar as condições de segurança no local da catástrofe, Marcelo Saldanha, membro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), afirma que foram identificados no local três níveis de materiais destinados a abafar o som. Acima do forro de gesso, havia uma camada de lã de vidro que evita a difusão do som para a vizinhança. Abaixo do gesso, colado a ele, estava a espuma.

— Inicialmente, havia o gesso e a lã de vidro. Mas, para evitar o eco que se formava no local, os proprietários decidiram acrescentar a espuma — revelou Saldanha.

A reconstituição prevista pela Polícia Civil terá ainda um outro elemento: os mais de 60 celulares das vítimas. Vídeos e fotos que tenham sido feitos no início do incêndio poderão contribuir para a reconstrução ainda mais fiel dos fatos.

— Alguém deve ter gravado as cenas, e a gente vai descobrir. É só uma questão de tempo — diz Meinerz.

BUSCA DE RESPOSTAS

Investigadores compõem o quebra-cabeças que irá explicar como a tragédia aconteceu:

Quem é o fabricante da espuma usada para isolamento acústico na boate Kiss?

Por enquanto, não há informação oficial sobre isso.

Quem é o fornecedor da espuma?

Está em investigação pela Polícia Civil, que diz não saber ainda. O advogado Jader Marques, que defende Kiko Spohr, um dos proprietários da casa noturna, diz que Kiko contratou um engenheiro, que teria indicado "onde comprar", mas não revela detalhes.

Quem instalou a espuma?

Segundo a Polícia Civil, o responsável pela instalação foi um barman da boate, cuja identidade é preservada. O delegado regional Marcelo Arigony afirma já ter ouvido o responsável, mas o depoimento é mantido em sigilo.

A espuma usada era mais barata?

Isso está sendo analisado pela perícia. Especialistas dizem que no mercado há modelos com aditivo de controle de chamas, que podem chegar a até R$ 75 o metro quadrado (50mm de espessura). Os modelos mais simples, sem esse detalhe, custam a partir de R$ 45 em média.

Se o sputnik usado fosse específico para ambientes internos, o resultado seria diferente?

Sim, já que esse equipamento é produzido para não provocar a combustão de produtos inflamáveis.




Clique na imagem e confira o perfil das 236 vítimas

Como aconteceu

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 236 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.

A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:

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A boate

Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.

Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:


A festa

Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.

Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.

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