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Opinião02/02/2013 | 17h04

Marcelo Rech: O coquetel fatal não é fatalidade

No Brasil, é corrente terceirizar toda a culpa na inação dos poderes públicos, mas a origem dos acidentes reside muitas vezes na incúria do cidadão que administra situações de risco

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Marcelo Rech: O coquetel fatal não é fatalidade Marcelo Rech/Zero Hora
No Japão, cultura de responsabilidade individual levou motorista de ônibus a tomar precaução extra Foto: Marcelo Rech / Zero Hora

Observe a foto: ela mostra um ônibus estacionado por poucos minutos em um suave aclive. O veículo está em perfeitas condições, mas o motorista, como invariavelmente todos os seus colegas, não pensa duas vezes em pôr um calço na roda para que, na remota hipótese de uma falha no freio, o veículo não desça a ladeira. Infelizmente, a imagem não é do Brasil, mas do Japão, um país onde mesmo fatalidades desencadeadas por terremotos e tsunamis são minoradas pela obsessão com a segurança.

Em geografia e atitude, o Brasil está no extremo oposto. O coquetel fatal que desemboca em tragédias como a de Santa Maria se alimenta de quatro ingredientes infortunadamente corriqueiros entre brasileiros com obrigação de zelar pela segurança de outros. A soma da irresponsabilidade e da permissividade com a impunidade e o individualismo reflete um país, com raras exceções à regra, refratário à disciplina de fazer da segurança a primeira prioridade quando se organiza qualquer atividade, como agem japoneses e povos em outro estágio da civilização.

No Brasil, é corrente terceirizar toda a culpa na inação dos poderes públicos, mas a origem dos acidentes reside muitas vezes na incúria do cidadão que administra, de alguma forma, situações de risco. O motorista que ultrapassa em local sem visibilidade na estrada, torcendo para que não venha um carro em sentido contrário, está a dois segundos de matar a sua família e a de outros. Não há fatalidade nenhuma aí, como não há azar em um pitbull que dilacera uma criança ou no barraco mantido em área irregular soterrado pela lama na chuvarada. Existe é uma propensão nacional para desdenhar da morte à espreita.

A permissividade e a impunidade são primas-irmãs da irresponsabilidade. No Brasil, não raro quem enquadra irresponsáveis é alcunhado de autoritário. Até agora, não se conheciam manifestações pelo fechamento de arapucas travestidas de boates, mas sim protestos contra as raríssimas interdições. Ou seja, a pressão pública costuma caminhar pelo afrouxamento – seja pela natural rejeição brasileira a rigor e controle, seja pelo coitadismo atiçado por ativistas que impele autoridades a consentir com gente habitando encostas que desabarão nas próximas chuvas.

Por fim, há o individualismo, traço ocidental exacerbado no Brasil, no qual a vontade individual se sobrepõe ao direito coletivo, e que abrange desde o sujeito inconveniente que põe o som a todo o volume, desprezando os vizinhos, até o extremo de quem suborna ou se deixa subornar. No individualismo está também o germe da obtenção da vantagem a qualquer preço que contamina a vida em sociedade e desenvolve a perversa noção de que investir em segurança é um mal desnecessário.

As mortes de Santa Maria são irreparáveis. Mas que, pela memória das vítimas, o Brasil mude agora e transforme irresponsáveis e permissivos que deveriam garantir a segurança de outros em criminosos e párias sociais. Ou, para nosso desalento, seguiremos noticiando ainda muitas outras boates Kiss.



Clique na imagem e confira o perfil das 236 vítimas

Como aconteceu

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 236 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.

A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:

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A boate

Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.

Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:


A festa

Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.

Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.

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