A vida interrompida terá uma continuidade simbólica por meio de uma iniciativa da mãe, a empresária Mariângela Pontes. Poucos dias após a tragédia, ela se manifestou defendendo um projeto — que poderá ser um movimento ou uma campanha — pela segurança nos espaços públicos.
— Observe o que aconteceu na Arena ontem (quarta-feira) — observa ela, referindo-se ao rompimento de uma grade de proteção da arquibancada do estádio do Grêmio — As pessoas têm de se conscientizar. Se existe normas, vamos segui-las. Não vamos beber e dirigir. Temos que cuidar da segurança das boates, mas existem outros lugares, outras situações que exigem que tenhamos consciência. No trânsito, por exemplo.
Proprietária de uma agência de turismo, Mariângela é moradora de Cachoeira do Sul. O marido é pecuarista. No domingo pela manhã, ambos viajaram para Santa Maria, onde morava o filho, alertados por um torpedo de celular de uma amiga de Guilherme que perguntava se estava tudo bem com ele. O casal tomou consciência da proporção do episódio apenas durante a viagem, por meio do rádio. Já se falava em 180 mortos.
Iniciativa tem apoio de família e amigos
Mariângela ficou preocupada quando não conseguiu falar com o filho pelo celular. Tampouco obteve contato com a namorada dele, a estudante de Odontologia Stefani Posser Simeoni, 18 anos. Imaginou que estivessem juntos. Tinha razão. Nenhum dos dois resistiu à tragédia. A família de Stefani, natural de Marau, chegou a Santa Maria pouco depois de Mariângela e do marido.
— Ele jamais a deixaria para trás. Era muito solidário. Era uma pessoa alegre, carismática. Quando precisava falar, falava. Tinha ideias fortes sobre determinados assuntos — conta.
A iniciativa de um projeto de conscientização conta com a simpatia de amigos e familiares. Ela acredita que terá o apoio de parceiros no momento adequado. Por enquanto, tudo está no plano das ideias:
— É uma necessidade de fazer algo para que outros não passem pelo que eu e minha família estamos passando. Não sei exatamente como vai ser. Nesse momento, não tenho condições de começar nada. Meu pai está com Alzheimer e minha mãe está muito debilitada. Estou com uma linha de raciocínio funcionando, mas as emoções falam mais alto.
Enquanto alimenta a expectativa de colocar em prática sua iniciativa, Mariângela conta que busca amparo em uma "força superior". Estava em uma igreja quando recebeu a ligação de Zero Hora.
— Não sou devota de qualquer religião, mas acredito que existe algo muito grande e forte. Meu filho era um menino maravilhoso, como tantos outros que estavam lá. Eram todos gente de bem. Eles estavam se divertindo.
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 236 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:
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A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:
A festa
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.
Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizada Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.













