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Motivo para continuar01/02/2013 | 06h25

Mãe de vítima do incêndio em Santa Maria pretende lançar projeto de conscientização

A empresária Mariângela Pontes não quer apenas cobrar fiscalização em casas noturnas frequentadas por jovens, mas defender o cumprimento de normas que garantam a vida e o bem-estar da população em diferentes situações

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Mãe de vítima do incêndio em Santa Maria pretende lançar projeto de conscientização Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Depois de perder o filho (na foto) e a futura nora, Mariângela pensa em criar campanha pela segurança em espaços públicos Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
Fábio Prikladnicki

fabio.pri@zerohora.com.br

Vítima do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Guilherme Pontes Gonçalves, 19 anos, deixou planos inconclusos. Um deles era realizar um mochilão pela Europa com os amigos este ano. Também desejava embarcar em uma viagem de intercâmbio para um estágio no Exterior — cursava o terceiro semestre de Agronomia na Universidade Federal de Santa Maria.

A vida interrompida terá uma continuidade simbólica por meio de uma iniciativa da mãe, a empresária Mariângela Pontes. Poucos dias após a tragédia, ela se manifestou defendendo um projeto — que poderá ser um movimento ou uma campanha — pela segurança nos espaços públicos.

— Observe o que aconteceu na Arena ontem (quarta-feira) — observa ela, referindo-se ao rompimento de uma grade de proteção da arquibancada do estádio do Grêmio — As pessoas têm de se conscientizar. Se existe normas, vamos segui-las. Não vamos beber e dirigir. Temos que cuidar da segurança das boates, mas existem outros lugares, outras situações que exigem que tenhamos consciência. No trânsito, por exemplo.

Proprietária de uma agência de turismo, Mariângela é moradora de Cachoeira do Sul. O marido é pecuarista. No domingo pela manhã, ambos viajaram para Santa Maria, onde morava o filho, alertados por um torpedo de celular de uma amiga de Guilherme que perguntava se estava tudo bem com ele. O casal tomou consciência da proporção do episódio apenas durante a viagem, por meio do rádio. Já se falava em 180 mortos.

Iniciativa tem apoio de família e amigos

Mariângela ficou preocupada quando não conseguiu falar com o filho pelo celular. Tampouco obteve contato com a namorada dele, a estudante de Odontologia Stefani Posser Simeoni, 18 anos. Imaginou que estivessem juntos. Tinha razão. Nenhum dos dois resistiu à tragédia. A família de Stefani, natural de Marau, chegou a Santa Maria pouco depois de Mariângela e do marido.

— Ele jamais a deixaria para trás. Era muito solidário. Era uma pessoa alegre, carismática. Quando precisava falar, falava. Tinha ideias fortes sobre determinados assuntos — conta.

A iniciativa de um projeto de conscientização conta com a simpatia de amigos e familiares. Ela acredita que terá o apoio de parceiros no momento adequado. Por enquanto, tudo está no plano das ideias:

— É uma necessidade de fazer algo para que outros não passem pelo que eu e minha família estamos passando. Não sei exatamente como vai ser. Nesse momento, não tenho condições de começar nada. Meu pai está com Alzheimer e minha mãe está muito debilitada. Estou com uma linha de raciocínio funcionando, mas as emoções falam mais alto.

Enquanto alimenta a expectativa de colocar em prática sua iniciativa, Mariângela conta que busca amparo em uma "força superior". Estava em uma igreja quando recebeu a ligação de Zero Hora.

— Não sou devota de qualquer religião, mas acredito que existe algo muito grande e forte. Meu filho era um menino maravilhoso, como tantos outros que estavam lá. Eram todos gente de bem. Eles estavam se divertindo.

Como aconteceu

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 236 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.

A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:

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A boate

Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.

Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:


A festa

Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.

Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizada Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.

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